Diário

07/12/2012 - 19:24 | Postado por:
24- Um Viajante não segue planos… apenas sonhos! 07/12/2012

“Morei” por um mês em Tampa. E me deu vontade de ficar ali morando pelo resto da vida!

O lugar, a boa educação das pessoas,  a facilidade da vida, os preços baixos, o respeito ao direitos, e mais … e tudo …

Deu tempo bastante para fazer um bom balanço desse início de “Volta ao Mundo”. Pude pensar muito sobre a continuidade da realização do Projeto Meu Mundo Meu Sonho, sobre os planos para cumprir o roteiro, custos reais e uma boa avaliação dos efeitos dessa primeira etapa no moral da tripulação.

Sozinho!

- Viajar sozinho mereceu uma séria  reflexão. Tenho que reconhecer que após os primeiros meses senti muita falta de alguém com quem conversar, dividir as tarefas e  os problemas, reais ou imaginários, compartilhar os momentos bons ou ruins,contagiar e ser contagiado ao maravilhar-se com magníficas paisagens, lugares ou pessoas especiais. Na maioria das vezes viajava quieto, observava quieto, comia em silêncio e, quieto ainda, me ajeitava para dormir na cama atrás dos bancos. Houveram vezes que me obriguei a puxar assunto em voz alta, comigo mesmo, com o “Fiapo”, coitado, e até com amigos que a imaginação trazia ao banco do carona. Ouvi muitas vezes o “pen drive” gravado em Floripa, com mais de 800 músicas. Decorei  a sequência! Muitas me animaram a cantar  alto, outras dancei desajeitado sobre o banco, e me pegava sorrindo a toa, e também teve algumas em que chorei. No vidro dianteiro do carro, de um lado, tinha a foto de meus queridos filhos Tiago, Diogo, Vinicius e Guilherme, e do outro, uma foto minha com a Rosiane. Namorada, amiga, incentivadora, inspiração, exemplo de mulher. Seu sorriso e seus olhos sempre me davam ânimo a cada kilometro. Olhando sua foto, relembrava detalhadamente cada um de nossos improvisados momentos, sempre perfeitos!! Como é bom amar alguém. Como não é bom permanecer tempo, sem estar junto de quem amamos.

O carro.

- O Teimoso, minha Land Rover 130, foi perfeita. Até quando judiei um pouco dela, no Peru, ao permitir que colocassem gasolina em vez de diesel no tanque. E por 150 km, o motor foi mudando de “voz” até me fazer perceber que algo estava errado. Parei, esgotei o tanque todo, limpei os bicos, e pronto. Tudo perdoado, seguimos ronronando felizes no tranquinho dos 80 km/h que me levou até Prudhoe Bay, no Ártico. Até me lembro de ter ficado chateado com uma placa na beira de uma estrada principal nos EUA, apontando uma saída, onde dizia “Lerdo Higway“, Achei que estavam zombando de nós! Como andamos devagar, agora, já com 45.000 km, os  pneus e freios ainda estão como novos! No currículo, uma das 10 estradas mais perigosas do mundo, a James Dalton Higway, no Alasca. Além da perfeição mecânica da Land, tive um pequeno problema na parte de trás, onde eu dormia. Face o calor exagerado na América Central, apareceu uma trinca sobre o teto do baú. Quando chovia, entrava muita água. Por duas vezes apliquei vedante. Não resolveu. Cheguei a achar que a entrada de água seria pela borracha lateral de fechamento do tampão. Não era. E Como só podia verificar o defeito quando chovia, não tendo chovido muito só descobri o local exato em Tampa-EUA. Comprei uma fita adesiva especial para vedação e apliquei. O resultado só poderia observar quando chovesse novamente, pois  com o carro parado, jogando  água com mangueira, não havia infiltração.

Comida

- Com a alimentação não tive qualquer problema. Não tive sequer uma dor de barriga. Nunca passei fome. Nem quando tive como único prato salgado do dia, durante quase toda a América Central,  um saboroso e suculento arroz  com 2 ovos fritos!! Saboreei alguns “miojos”, improvisei banquetes com muitas sopas instantâneas. Quando ficava com muita gana de apressar tudo, passava o dia inteiro dirigindo e … comendo! … banana, descascava maçã, sobre a caixa-console preparava sanduíches de atum com doce de abacaxi, uma xícara de chocolate quente ou café com muito leite, sem açúcar. Só uma vez virei um copo de leite enquanto preparava a refeição. Me assustei, mas ri um bocado. Um mês depois ainda havia vestígios de leite. Eu achava seguindo o “cheirinho”!! Curiosidade no quesito, foi que quase enjoei de tanto comer Mac Chicken nos EUA e no Canadá. É que quando precisava usar a internet, o lugar mais prático era sempre o Mac Donalds. Ali podia tomar café, almoçar, ir ao banheiro, usar a internet e, depois de tudo, apesar de tudo, ir dormir no estacionamento, ainda com internet. Batia um papo com o gerente e tudo ficava acertado. Bastava que no dia seguinte, nem que fosse com sol alto, eu comesse outro nutritivo Mac Chicken! Urghhhh! Mas nem devo reclamar. Me serviu e muito!!

Vestuário

- A roupa foi o item que menos me incomodou. Sob os bancos na parte  traseira a Ro colocou caixas e caixas de camisetas, blusas, jaquetas, toalhas, cuecas, meias, gorros, tênis e botas, calças, bermudas e calções que eu nem sabia bem onde estavam localizados. Afinal, após 5 meses e meio usei apenas uma jaqueta, uma calça, 2 bermudas, 2 camisetas, 2 cuecas, uma sandália e um bonézinho! Quando colocava a calça ou uma bermuda, esquecia a data que a havia colocado. Quando achava que devia tirá-la, lavava e jogava sobre o armário traseiro junto com as outras mudas de roupa. Ficariam sempre a vista pra lembrar que, um dia poderiam servir de novo. As cuecas, lavava, sempre que lembrava, ou quando podia …. ou quando … rsssss,  fedia! Até o dia em que decidi que eram itens completamente dispensáveis. Como eram bastante sexy, porquê ou, pra quem, eu as usaria!? Foooora!!

Finanças –  Custo Brasil!!!

- Os gastos não representaram problemas. Só os normais! Estes foram, em média, U$ 60 por dia. Fora do esperado foram os custos de revisão da Land no Equador, trocas de óleo nos EUA e …. – Uma Novela!! – o despacho do carro de Miami ao Brasil, Porto de Itapoá-SC. Decidido que o carro voltaria ao Brasil, resolvi mandá-lo direto ao nosso país, deixando de lado as recomendações para envia-lo a Montevidéu ou Buenos Aires, pelo fato de que todos falam sobre os inconvenientes da burocracia e do “custo Brasil”. Só que  ninguém sabe especificá-lo. Decidi conhecê-lo para poder informar aos colegas de aventura e viagens. Vamos aos detalhes: O despacho de Miami custou U$ 1.800. Para mandar o dinheiro ao despachante tive que pagar R$ 1.220,00 de Imposto de Renda. Após a chegada do carro, para movimentação do container no  porto R$ 739,00. Para a Marinha Mercante uma taxa de “uso do mar” R$ 680,00. Para o Despachante R$ 650,00. E, finalmente para cobrir os 14 dias de armazenagem que o carro ficou no porto, durante os tramites de liberação, mais R$ 2.900,00 (nos EUA me disseram que Itapoá era o porto mais ágil do Brasil – aqui soube ser apenas um dos mais caros – o dobro de São Francisco do Sul, – além de depender dos trâmites em outra cidade) !!!!!!! Soma total – R$ 9.000,00. Tudo isso somado a 3 idas e vindas, de Curitiba a São Francisco do Sul, cidade mais próxima ao Porto de Itapoá. Só em São Francisco é que tem um orgão da Receita Federal, onde, antes de qualquer procedimento, deve-se abrir um Processo para liberação da carga, onde o importador tem que provar estar tudo em ordem, não trazer contrabando, ter pago todas as questionáveis e imprevistas taxas. No dia da abertura do processo os fiscais não sabiam se a Land entraria no país como Re-importação ou outra forma que satisfizesse o sistema, que necessitava de um código a ser gerado quando tudo estivesse de acordo. Como após várias tentativas e mais de uma semana de consultas, o sistema se negava a gerar o código de liberação da forma sugerida, resolveu-se que a Land entraria como “Bagagem”, dando-se, assim, um “jeitinho” para gerar os códigos necessários e exigidos pelo mais rigoroso, correto e infraudável “sistema” de arrecadação do mundo.

Mudanças

- Carro no Brasil!!?? No Projeto não seria Nova Zelândia!!?? Pois é, depois de tudo o que escrevi acima resolvi mudar o roteiro.

- O defeito no teto do baú não foi possível consertar nos EUA. Ora pediam muito caro, ora se recusavam a fazê-lo por não ser um carro fabricado no país. Resolvi fazê-lo no Brasil. Mas este não foi o motivo principal. Poderia consertá-lo em qualquer parte do mundo.

- Viajando para longe, já era de meu conhecimento que o carro geraria um custo que poderia ser evitado. Entre os continentes precisa ser despachado de navio. O custo é alto. Durante a travessia, teria que seguir de avião até o local de desembarque e aguardar o carro por um período de uns 30 dias em média, gerando um custo de hotel e alimentação, que também pode ser eliminado. O veículo poderia ser usado como exposição de marcas de patrocinadores e assim os custos descritos seriam cobertos. No entanto, aqui, como em qualquer parte do mundo, todos os negócios estão estudados para gerar o mínimo de custos e o máximo de lucros. O lucro que eu e  meu carro, o Teimoso, e minhas ações,  podemos gerar, não é tão significativo e palpável num primeiro momento, capaz de atrair patrocinadores dispostos a arriscar. É preciso muito mais fama e reconhecimento pela parte do Executor – EU !! – para gerar mais exposição na mídia e outras formas de contra-prestação do investimento. Por isso decidi abrir mão do carro. Decidi voltar ao Brasil, vender o Teimoso. Foi uma decisão difícil. Afinal a exposição proporcionada pelo carro, todos os dias inflava o meu ego. Mas o custo é muito alto, apenas para “mostrar” aos outros que estou viajando. O Teimoso chamou muito a atenção. Fazia com que as pessoas “viajassem”. Porém aos poucos fui me convencendo que era apenas um chamariz. Um objeto para atiçar o imaginário. O carro traria devaneios, ainda que nunca tivesse rodado nem 1 kilômetro. Na realidade o viajante somos nós.  Exploradores de alma inquieta e curiosa, independente dos meios! É a nossa origem nômade, nossos antepassados que percorriam o mundo a pé. Assim o Projeto seguirá, mais tardar em fevereiro, provavelmente na África. No continente onde eu estiver, comprarei ou alugarei um carro, ou seguirei por outro meio, o que for mais conveniente na ocasião.

Motivos para mudanças!

Sozinho, só se não tiver outro jeito! E não por muito tempo!!

- Viajar sozinho não é a melhor forma de realizar um sonho!! É uma arte que me fez crescer muito. Fui um privilegiado por ter realizado esta etapa por 5 meses e meio e passado por tantos momentos de alegria, tristeza e realização. Aprendi comigo e com os outros. Descobri novos potenciais e expandi velhos limites. Consegui enfrentar a mim e a meus medos, sem condescendências. Em algumas ocasiões, após a volta, alguns amigos tem questionado por eu ter me tornado mais  introspectivo. É possível! Sinto que passei a considerar muito rapidamente apenas o que é essencial á sobrevivência. Aprendi a identificar apenas o que necessito, o básico, o simples. Gostei de usufruir do pouco e ficar satisfeito. Por não ter muito com quem falar, quando falava, é porque realmente precisava de algo. Nunca era para impressionar, nem para zombar, muito menos me fazer herói.

- O ser humano é um ser social. Precisa viver em comunidade, junto aos seus familiares e amigos. Durante a viagem, por algumas vezes me emocionava apenas por poder falar mais com algumas pessoas, podendo olhá-las nos olhos. Certa vez, após 4 meses de viagem, alguém tocou no meu braço. Foi uma sensação estranha. Após um tempo sem contato físico com ninguém, senti o quanto esse contato, o toque carinhoso, o abraço daqueles que amamos, é essencial para sermos felizes. Tinha motivos para estar deprimido. Meus filhos e a pessoa que amo tinham ficado para trás. Por impossibilidades diversas não puderam e não podem estar, nem viajar o tempo todo comigo. Filhos devem escolher seus próprios caminhos e terão seu tempo e motivos diversos de aventurar-se. Quem amo está sempre comigo –  ”…estoy aqui y nao ves…”(Miguel Bose – Si tu non vuelves!), ainda que em lugares diferentes. Enquanto for bom para nós dois, estaremos juntos em qualquer lugar onde estivermos. Ainda durante a viagem e, desde que cheguei, conversamos bastante, para viabilizarmos algumas formas de estarmos fisicamente juntos, na continuidade do projeto. Sempre que houver a possibilidade, faremos tudo o que for necessário para vivermos cada vez mais e mais momentos, sempre e de qualquer jeito … perfeitos!!

Parceiros

- Até aqui tive ótimos parceiros de aventura. Agradeço penhoradamente a cada um!!

Ao Tony da Canyon, loja de artigos de aventura.

Á Ekron Guinchos, na pessoa do meu amigo Junior, que forneceu o seu excelente guincho mecânico, além do macaco Hi-lift.

Á Condor Escovas de São Bento do Sul que forneceu as escovas de dentes doadas durante a viagem. Ainda tenho algumas que levarei para as próximas etapas. Sei que quando precisar mais serei atendido.

Á Clinica de Cirurgia Plástica do Dr. Pércio Ferreira Filho pelos mapas-múndi e do corpo humano distribuídos nas escolas que visitei e que ainda vou visitar.

Á Link Monitoramento, na pessoa de um verdadeiro novo amigo, Hugo, cuja visão de empresário aprendi a admirar, e que permitiu que milhares de pessoas me acompanhassem diariamente, em qualquer canto das Américas.

- Tudo o que escrevi acima é parte atual do MEU MUNDO!! Aquele que meus pais me mostraram e fui vivenciando ao longo dos anos de minha vida até agora. Este mundo que permitiu que eu pudesse ter MEU SONHO!

SIGO EM FRENTE!!!

Até o próximo Post!