Diário

18/08/2013 - 16:21 | Postado por:
34- Com emoção! 18/08/2013

Lições de vida!

Talvez tudo o que eu venha a escrever sobre o Camboja, seja incapaz de traduzir toda a emoção que o lugar  transmite.

Passear pelas ruas de Siem Reap, percorrer os campos de cultivo de arroz do interior, ouvir o permanente burburinho das crianças brincando como antigamente, se maravilhar com a história descrita nos diversos templos espalhados por todo o país, presenciar toda a sede de viver dos milhares de cambojanos, sedentos de vida, após anos seguidos de morte e sofrimento nas guerras internas, que dizimaram milhares de vidas, e, finalmente, aprender a sorrir e ser feliz, mesmo com tanta pobreza e dificuldade para ter o mínimo para comer e vestir. Tudo isso, somado, nos impressiona a alma. É uma verdadeira lição de vida!

Templos

O Camboja é famoso no mundo todo por causa dos seus templos. O mais famoso deles é o Angkor Wat. Tão importante que sua figura faz parte da bandeira oficial do país. A maioria deles ficam na cidade de Siem Reap. Ali chegam todos os dias aproximadamente 7.000 pessoas só para visitar  templos! É uma verdadeira festa, ou, um congraçamento mundial diário. O turismo é a maior fonte de receita externa. Cada turista paga US 20 ao dia para ir aos templos que estão espalhados numa área gigantesca ao redor da cidade. Assim, todos ganham. Não dá para ver tudo em um dia só. São necessários no mínimo 3 dias. Bom para hotéis, comércio e restaurantes que vivem lotados, todas as épocas do ano. Para ir até os templos são usados, ônibus, vans, automóveis alugados ou particulares com motoristas, bicicletas, motos, e os famosos “tuk tuk” – motos que carregam um reboque com bancos e cobertura com assento para até 5 pessoas.

Os tuk-tuk são usados principalmente para carregar turistas, mas, também servem para transportar qualquer coisa. Desde móveis até animais. Afinal aqui na Asia é comum ver a criatividade com que carregam cargas enormes em pequenos veículos. É normal encontrar bicicletas nas ruas e estradas, circulando “escondidas” no meio de cargas gigantescas.

Templos

Todos os dias pela manhã, meu tuk-tuk driver me buscava no hotel as 8 da manhã e seguíamos pelas estradas do interior até os templos mais distantes.No caminho, íamos  parando sempre que algo “diferente” aparecesse. Esse era o combinado. E ele, gostando da idéia, parava a todo momento para me mostrar tudo o que conhecia e tinha vontade de mostrar. Afinal, disse ter nascido nos campos de arroz, nos sofridos tempos de guerra, e agora, sentia-se orgulhoso de estar tendo oportunidade de contato com turistas, proporcionando uma troca de ricas experiências.

Em cada templo eu demorava aproximadamente 2 horas, andando e admirando os detalhes da antiga construção e da tentativa de reconstrução do governo cambojano para manter seu tão valioso patrimônio. Em alguns templos as obras de restauro ocupam muitos ângulos, enquanto em outros, como Ta Prohn, decidiu-se deixar da forma como foram encontrados, por representar a continuidade da natureza sobre as obras humanas, estando parte encoberta por árvores milenares.

Angkor Wat, construído no auge do Império khmer, entre o século IX e XV, declarado patrimônio histórico mundial pela Unesco em 1.992, é um dos tesouros arqueológicos mais importantes do mundo, e o maior monumento religioso construído pelo homem até hoje. Pelas suas dimensões e estrutura, Angkor Wat abrigou a maior cidade de seu tempo, podendo ali ter vivido aproximadamente 1 milhão de pessoas!. A região dos templos em estimativas recentes, calcula-se ter uma área de 1.000 km2. Ao todo foram encontradas mais de 1.000 ruínas de templos. Para se ter uma idéia, a região rival em ruínas e templos, Tikal na Guatemala, tem apenas 150 km2. E aqui, parece ser ainda maior, pois em 07/2012 foi descoberto mais um templo, escondido no meio das densas florestas próximo a Siem Reap. Estima-se ter sido construído há mais de 1.200 anos!

Uma história triste

Os motivos que levaram governantes antigos, da monarquia Khmer, a levantar templos tão grandes, era sua vontade de se igualar aos deuses, engrandecendo a divindade humana. O mesmo homem, que a partir de 1975, resolveu se rebelar contra seu governantes, estabelecendo o que ficou conhecido como Khmer Vermelho.

“Escolas não são necessárias. O que é preciso é apenas trabalho.” Essa foi a frase do líder comunista, conhecido como Pol Pot, ao tomar o poder em 17 de abril de 1975. E todos os moradores das cidades foram obrigados a se retirar para os campos. Phnom Penn, a capital, virou uma cidade fantasma. Aqueles que se negaram, foram presos, torturados e mortos para servir de exemplo. Todos os intelectuais foram mortos. Todas as escolas e templos foram transformados em prisões ou campos de concentração e execução. O mais famoso deles, chamado S-21, era uma escola em Phnom Penh, onde foram mortos mais de 20.000 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

Dessa guerra resultaram mais de 1,7 milhões de mortos e uma sociedade em descompasso com um mundo moderno ao seu redor. Passeando pelas ruas das cidades e seus arredores, se tem a noção exata do atraso causado por esse genocídio. Visitando o museu, não há quem não se emocione com as fotos e, principalmente com o lugar, pois todas as marcas ainda são muito recentes.

E se perde a noção de até que ponto, o ser humano pode retornar á bestialidade, quando é conduzido pela prepotência e ignorância. Alguns intelectuais, que haviam estudado humanidades e ciências políticas, entre elas o comunismo, resolveram voltar ao seu país e implantar suas idéias á força. Uma das estratégias, era dar postos de comando militar  a jovens sem estudo algum. Estes, em sinal de agradecimento a “tamanho reconhecimento” por parte de pessoas “tão importantes e sábias”, obedeciam cegamente ás ordens, por mais estúpidas que fossem.

Gente simples e feliz

Tudo isso forma o colorido que nos emociona ao visitar o Camboja. A visita á vila flutuante foi impactante. não esperava tanta diversidade. Presenciar a luta pela vida de forma tão dramática, e, ao mesmo tempo ver pulsar o sentimento de felicidade e alegria estampado nos largos sorrisos. É uma corrida contra o tempo. É preciso viver! Não há tempo para lamentações e a tristeza, embora exista, não resiste á necessidade de sair atras do sustento diário com toda a energia disponível. Melhor sorrir do que chorar, é o que está escrito no rosto de cada um por aqui!

O lugar impressiona os visitantes de forma tão forte, que é normal, que no dia seguinte á sua chegada ao país, os turistas comecem a querer aparentar locais e todos, homens e mulheres, usam as mesmas roupas: calças largas  e estampadas, camisetas regata e chapéu.

Os cambojanos são de uma simplicidade e alegria contagiantes. Se desdobram para nos fazer todos os mimos possíveis. No último dia de visita aos templos, convidei meu “Tuk Tuk driver” para almoçarmos juntos. Pedi a ele que escolhesse o melhor restaurante da região, no meio dos templos onde estávamos. Ele agradeceu timidamente e eu insisti forçosamente. Teve que ir. Olhando o cardápio, foi como em todos os lugares. Nada parecido com uma comida normal pra mim. Acabei optando por uma sopa de frutos do mar, que dizia vir peixe num caldo de côco. Na foto até me pareceu aquelas comidas típicas da Bahia. Acho que cheguei até a babar na foto, de tanta fome. Ele pediu uma sopa  normal de tomate e outros vegetais. Quando vieram os pratos, vi que a sopa dele era muito bem apresentável, mas …… a minha….! Parecia uma água esbranquiçada e cheia de cheiro verde, e uns pedaços de um vegetal duro, como bambu, ou coisa parecida. Dei uma mexida e lá no fundo apareceram uns dois ou três pedaçinhos de lula. Logo veio de novo o garçom, dessa vez trazendo uma tigela com arroz. O meu driver explicou que tudo se come com arroz. Você pega uma colher de arroz e mergulha na sopa e come. Olhando pra minha sopa, vi que nem aquele arrozinhooo iria me salvar. Não sabia bem o que fazer. Se comia, se pedia outra coisa, se disfarçava e dizia….”gostooooso!”, ou se chorava. Meu amigo logo percebeu e começou a se desculpar. – “Sorry…..ohh  sorry”!!  Dei risada e demorei um tempinho pra que ele entendesse  que não tinha culpa alguma daquilo. E que eu é que não  estava acostumado com o tipo da comida ou qualquer coisa assim. Mas, fome, muita fome á parte, o que ficou, foi o fato de ele ter se desapontado muito por eu não ter gostado nadinha, e nem conseguido disfarçar meu “gosto extremamente refinado”. Enjoado, em outras palavras!!

Alem dos turistas, o que muito se vê por aqui, são ONGs. Organizações do mundo todo estão presentes aqui, sensibilizados por alguma causa. No interior, em muitas casas se vêem placas de doações dos mais diversos itens de necessidade. A mais comum, e de grande utilidade, são as bombas d’água. Vi até uma placa de doação de um grupo argentino. E não achei exibicionismo, mas sim, uma forma de que outras pessoas, vendo a placa, sintam vontade de participar.

De Siem Reap, fui a Battambang, de ônibus, para apreciar mais ainda o interior do país. Nenhuma novidade além do que já tinha visto. Apenas notei que nas estradas esburacadas, circulam tantas motos e bicicletas quanto nas cidades. E o motorista do ônibus dirigia com uma mão na buzina o tempo todo. Produzia um barulho forte, como se fosse um trem ou um navio chegando, assustando e jogando todos para bem longe do caminho.  Até que, de tanto buzinar, estragou. Quando tentava buzinar, saia algo parecido com um “bipizinho meio desmaiado”, e os que antes saiam assustados, agora olhavam com desprezo e nem saiam mais do caminho. Sem seu “rugido forte” o motorista descarregou sua frustração dando socos no interruptor da buzina, e reduziu a velocidade! E como o ônibus não tinha banheiro, as vezes tínhamos que parar na estrada para algum passageiro ir no “matinho”. O “infeliz” chegava no motorista, contava sua “urgência” e juntos passavam a escolher um lugar “aconchegante”. Como aqui papel higiênico é artigo de luxo, meu nariz era capaz de sentir sutis diferenças no ar, cada vez que alguém voltava da “casinha”. Aliás, ainda não sei como fazem no banheiro. Só tem uma caneca plástica e uma tina com água. Me recusei até hoje a usar tal recurso. Sempre carrego meu arsenal próprio num dos bolsos. Mas mesmo assim, é meio estranho, entrar nos WC’s, e sempre encontrar o vaso sanitário e o chão encharcados.

Mas, como criticar os costumes de um lugar tão diferente do nosso, e dizer que “eles estão errados”. Viajando, a maior lição que  aprendemos é que em nenhum país se faz do jeito certo ou errado. Apenas cada um tem seu jeito!

Em Battambang, minha maior curiosidade era ir no tal Bamboo Train. Uma plataforma de bambu, colocada sobre dois eixos de trem e impelida por um motorzinho. Sem cadeiras, sem lugar pra se segurar e sem freios, e numa estrada de ferro toda torta e sem manutenção. O resultado é muita emoção além do risco enorme de ir parar no meio do mato. Comum. O curioso além disso é que só tem uma linha, e quem vem no sentido contrario tem que perceber o outro vindo, a tempo de deixar o carrinho parar, tirá-lo dos trilhos desmontando-o e esperar o outro passar voando e…rindo! Muito!

Isso é o Camboja! Um país alegre e com urgência de viver!

Um lugar para aprender muito sobre a vida. Com muita emoção!!