Diário

01/09/2013 - 11:55 | Postado por:
35- A guerra que nunca acaba … 02/09/2013

O país mais lindo do mundo?

Em 2006, quando estava visitando as ilhas de Uros no Peru, encontrei um viajante, que estava de férias de seu trabalho de tripulante de uma companhia aérea, com passagens por praticamente todos os países do mundo. Perguntei a ele qual o país mais lindo do mundo? Ele prontamente respondeu: “O Vietnam, sem dúvida!”                                 Virou um sonho pra mim!

Aqui estou! E como o país é pequeno posso percorre-lo por inteiro. Para os turistas existe uma infra estrutura gigantesca. Desde a hotéis de todos os preços, transportes e alimentação. Para conhecer todo o país, a forma mais barata é usar os “Open Tickets” ou “Open Bus”. Paga-se por uma passagem de ônibus leito, que percorre todas as atrações turísticas do país. Fica a nosso critério onde queremos descer, e quantos dias ficar em cada lugar. A unica exigência é avisar um dia antes, para reservar o lugar no ônibus. E ainda vão te buscar no hotel.

Pra não dizer que não falei dos espinhos …

É uma ótima ideia e que funciona muito bem. Milhares de turistas seguem o mesmo caminho, e vão trocando informações uteis. Mas, aí aparecem as limitações do sistema. A superlotação! E a diferença de costumes entre ocidentais e asiáticos. Esses são muito práticos e dispensam qualquer tipo de luxo. Um banco de plástico é uma perfeita cama! Noodles é a mais perfeita refeição! Os “leitos” dos ônibus tiveram como manequins, os pequenos corpos dos vietnamitas e seus padrões de conforto. Os restaurantes das paradas para almoço, jantar e uso de WCs, são quase inimaginável para nossos hábitos. Quando vão ao banheiro, usam a mão esquerda para a higiene íntima. Usam um canecão plastico para coletar a água e jogar sobre o “alvo”. Não há toalhas nem papel. A tina de onde tiram a água pro WC, também é usada para cozinhar. Para o pick-up nos hotéis, usam vans ou micro ônibus, que frequentemente são insuficientes para o número de turistas. E não há espaço para mochilas que vão amontoadas sobre o chão, bancos ou pessoas. Sendo que os últimos podem ter que ficar em pé, com suas mochilas nas costas, as vezes por mais de uma hora. Na minha saída de Hanói para o Laos, enquanto o guia me puxava pra dentro, o motorista me empurrava pela mochila para poder fechar a porta. Ainda bem que foram só 35 Km entalado entre a porta e uma montanha de mochilas no corredor!

Mas isso tudo é uma alternativa. Um hotel barato custa US 10. Um Open Ticket pelo país todo custa US 35. É possível pagar até US 500 por um hotel, e mais de US 700 para passagens aéreas. Num caso você fica um pouco mais pobre. No outro, fica muito mais rico. Em experiência, intercâmbio cultural e humano, e ainda pode dispensar meses de academia. Dificilmente vai conseguir comer algo mais que o estritamente necessário para se manter em pé!!

Consequências de Guerra!!

Visitando o museu da guerra em Saigon, observamos que ainda existe um rancor muito forte contra os EUA. E a história contada é que o povo pacífico e trabalhador do Vietnam foi massacrado pelos americanos, ávidos pelas riquezas naturais do país. É a versão contada. A realidade é muito mais complexa.

Quando me preparava para vir para cá, olhei vários mapas procurando pela exata localização de Saigon. Não achei em nenhum. Até que folheando um livro, vi o quanto o meu desinteresse pela politica as vezes me atrapalha. Tratei de me atualizar.

Descobri que ao final da guerra em 1975, resolveram fazer uma homenagem para o comandante norte vietnamita, Ho Chi Minh. E trocaram o nome da cidade de Saigom para o atual, Ho Chi Minh! E eu ainda não sabia!!? Nããão!!

Quando perguntei ao guia que me mostrava os detalhes do incríveis tuneis de guerra, e não se cansava de repetir que os americanos eram agressores de povos pacíficos, ele me respondeu que se tratava de uma merecida homenagem para um grande líder. Ponderei que se Ho Chi Minh era morador de Hanoi, ? Ele prontamente me respondeu:                    - “Porque nós somos os vencedores!!!”                                                                                       – ” Vocês atacaram o Vietnam do Sul, vietnamitas contra vietnamitas?”                               – “Contra o capitalismo, sim! E vencemos!”                                                                                 Só me restou  exclamar: – “Em qualquer guerra, não existe vencedor!  E sempre o perdedor será o mesmo. A humanidade!

Por quê os EUA perderam

O Vietnam, foi dividido em dois países em 1954, no final da guerra da Indochina (região do sudeste asiático que congrega Vietnam, Cingapura, Malásia, Indonésia, Coreia, Filipinas, Camboja, Laos e Myanmar). Em 1959 o Vietnam do Norte – comunista e aliado á Russia – atacou uma base americana no Vietnam do Sul, capitalista e aliado americano.  Era o inicio da uma nova guerra, que durou até 1975, com derrota americana e unificação do Vietnam sob bandeira comunista. Rsssss…. consultei bem a internet né!!

Mas como pode, um país tão pequeno derrotar um país tão maior e com tecnologia militar centenas de vezes superior?

Muito simples. Mas precisa vir até aqui para entender. Basta ficar um dia e … basta! O que se vê é um povo que – trabalha 365 dias por ano – dorme muito pouco. Em cadeiras, no chão e até na cama, quando tem! Às 6 da manhã o burburinho do comércio já segue alto – usa qualquer canto de rua como sede de grandes negócios – não tem o menor escrúpulo de vender qualquer coisa a qualquer preço. Todos os produtos do mundo, aqui tem seu equivalente falsificado –  de alguma forma, todos trabalham desde os 5 anos até! (na guerra as crianças eram recrutadas oficialmente, e os adultos que trabalhavam nos campos de arroz durante o dia, á noite eram obrigados a fazer um relatório como informantes) – são extremamente resistentes e fortes fisicamente, apesar da aparência franzina – não comem quase nada (durante a guerra, comiam quase só arroz, que levavam em pelotas no bolso. E quando era muito pouco, apenas ficavam cheirando o arroz e isso já lhes dava novas forças!! – e ainda, contam com a ajuda de todos os deuses e divindades existentes no mundo. Seus altares e oferendas representam uma mistura de todas as crenças do mundo!

Além disso, o país todo é coberto por uma floresta densa, úmida e quente. O suor fica escorrendo dia e noite, tanto no inverno quanto no verão. Os americanos bem que tentaram resolver tudo pelo ar, apelando até para as armas químicas como o “agente laranja” cujos efeitos se estendem por gerações, mas face as restrições internacionais, não pôde usar muito.  E, pelas condições do terreno, luta no chão era muito desigual. A tática no chão tinha que ser sempre a de guerrilha. O terror dos americanos eram os “tuneis subterrâneos” e as milhares de armadilhas mortais, feitas por soldados, camponeses e crianças. Para que os vietcongs não fossem suas próprias vítimas, cada armadilha tinha um sinal colocado em uma arvore, pedra, montículo próximos, e que eram mudados todos os dias! Tentar entrar em um tunel era praticamente impossível para os americanos. Eram feitos sob medida para os corpos franzinos. E se conseguissem, a morte era certa. Dentro dos tuneis eram colocados cobras, escorpiões, e várias sessões de armadilhas feitas em bambu com pontas envenenadas.

E … ainda hoje…

Estando vários dias junto ao povo pude observar, que tanto tempo vivido entre guerras sangrentas, ao todo foram 24 anos e aproximadamente 3.000.000 de mortos só na guerra contra os EUA, acabaram por transformar a natureza desse povo. Isso se revela claramente nos seus hábitos. Até quando falam – muito alto e estridente – parece que estão brigando, e quando brigam parece que vão se matar. E todos os dias a cena é muito comum. Adoram discutir por tudo e por nada! E para aplacar seu “nervosismo” , fumam! Muito, compulsivamente. Várias vezes observei pessoas acendendo um cigarro no outro. É normal ve-los pilotando motos, falando no celular e …fumando. Tudo ao mesmo tempo!

Hoje, parece que lhes faltam os inimigos para dar vazão a tanta energia. E o que se vê, é que a luta pelo dinheiro, tão condenada no capitalismo, aqui se transformou numa verdadeira guerra. Só o inimigo mudou. É qualquer um que tenha qualquer quantia para gastar.

E a natureza aqui é linda mesmo! Não diria que é a mais bonita do mundo. Mas é muito diferente e concentrada num país pequeno, fazendo com que o viajante não se canse de admirar todos os dias, sempre visões que ficam gravadas na alma. Tem desertos, milhares de kilometros de praias, montanhas, rios, lagos e cavernas

Mas basta tirar os olhos da paisagem, ou querer fotografar para percebermos uma dura realidade. – “Hei Sir!!!… no pictureeee… no fotooo!! One Dollaaaar…. One Dollaaaaar!!

É como um tiro, … em uma guerra que nunca acaba…