Diário

13/10/2013 - 23:23 | Postado por:
37- Myanmar…my anmar! 13/10/2013

Esperança de um país melhor!

Incluir Myanmar no roteiro não foi fácil. É um país que recém abriu suas portas para o turismo, após seguidos anos de sangrenta  luta interna. Conhecido antes como Birmânia,  a disputa pelo poder e espaço social entre grupos religiosos, principalmente budistas e muçulmanos dizimou o país e o colocou num atraso generalizado em todos os setores, em relação ao resto do mundo. Estar aqui é como uma volta ao passado. E ainda tem a exigência do visto. Como estava na Tailândia, bem próximo à fronteira com Myanmar, tive que voltar a Bangkok para solicitar o visto de entrada na embaixada. Mas consegui obtê-lo no mesmo dia, pagando US 120, além dos gastos com passagem aérea e hotel. De Bangkok fui direto pra Mandalay, por achar a mais interessante, já que carregava comigo algumas fantasias exóticas, criadas na mente, após ter lido o título e alguns comentários de um livro chamado “Estrada para Mandalay”.

Cuspindo “Sangue”!

Já no aeroporto tive a primeira cena inusitada. O motorista do táxi que me levaria á cidade, distante 42 km, aproximou-se e lhe expliquei, com mímica e gestos para onde queria ir. Ele ficou me olhando e mexendo a boca fechada, vagarosamente, sem me responder. Com a cabeça fez sinal que sim e virou o rosto para cuspir “sangue”. Entramos no carro e ele seguiu revirando a boca e de vez em quando abria a janela do carro e cuspia “sangue” novamente. Ao chegar no hotel, tive que perguntar na recepção o valor a pagar. Paguei e o táxi se foi. Arrumei minhas coisas no quarto, cujo preço me pareceu muito salgado em relação aos outros lugares da Asia, e sai dar uma volta antes de anoitecer, e, ainda lembrei que tinha que comer algo. É isso mesmo, normalmente esqueço de comer! Nas ruas observei que, na calçada esburacada, tinha várias “marcas” em vermelho no chão. Me pareceu que em cada buraco tinha marcas. E como tinha buracos e marcas vermelhas! Chegando perto de um edifício que parecia um shopping, numa esquina, pedi informação a um senhor sobre  lugar para comer. Ele estava mastigando algo. Mastigou mais um pouco, virou o rosto e cuspiu! “Sangue”!! De novo!? Éécaaa! Pareceu-me que a cidade toda havia ido ao dentista arrancar dentes ou haviam brigado muito. No shopping encontrei uma pessoa falando inglês e comentei o fato. A pessoa sorriu e me explicou. Quase todos os birmaneses tem o hábito de mascar umas folhas verdes enroladas. Dentro é colocado a “noz de Areca”. É uma semente, que é triturada e misturada com especiarias, tem gosto de menta, e quando mascada, mancha a boca de vermelho vivo, igual sangue! Pronto! Estava explicado toda aquela sangueira espalhada pela cidade! Época de monções, a cidade estava metade debaixo de água. Nas partes mais baixas, a população simplesmente deixa suas casas, sobe o barranco mais próximo e monta uma barraca onde vive por aproximadamente 4 meses, levando o necessário, como televisor e alguns móveis, cachorros, galinhas, porcos e bois. Até que chegue o período de seca. E repetem isso todos os anos. Sem dramas, sem revoltas. É simplesmente sua forma e viver.

Inle Lake

De Mandalay fui a Inle Lake. Simplesmente um dos lugares mais românticos do mundo. É conhecido mundialmente pelas vida singular de seus habitantes, pescadores, que exercem a atividade de forma rudimentar, mas muito original. Para poderem olhar onde estão os peixes, ficam em pé na popa de suas canoas, de madeira de tronco. Depois de localizá-los, ficam seguindo seus movimentos, segurando a rede com ambas as mãos, pronta para jogá-la sobre o cardume, permanecendo em pé, mas se equilibrando em uma só perna, usando a outra para “remar”. Ao redor do lago existem muitos resorts, que na alta temporada chegam a custar mais de US 300! E são muito bons mesmo. Mas eu levei sorte! Como era baixa temporada, fiquei num de alto padrão, pagando apenas US 50! Além do preço baixo, pude percorrer todo o lago para observar as atividade de confecção de artesanatos. O mais famoso são os cachecóis. Podem ser de algodão, seda ou lótus, sendo que esses últimos podem custar até US 200. São confeccionados em grandes fabricas e até pelas mulheres de “pescoço comprido”, também antigas habitantes da Birmânia.

Yangon

A capital de Myanmar é uma cidade grande, movimentada e com avenidas largas. De peculiar pode se observar que não existem motocicletas circulando pela cidade, como é comum em toda a Asia, os milhares de motos sufocando o trânsito. Trata-se de uma proibição mesmo. Apenas carros, ônibus e bicicletas são permitidos. Em Yangon a maior atração é um templo budista gigantesco, Shwedagon Pay, edificado bem no centro da cidade, dominando o horizonte de onde quer que se olhe. Todos os dias e até tarde da noite, permanece lotado de moradores fazendo suas orações, além de muitos turistas. A edificação principal é rodeada de outros pequenos templos, todos sempre cheios de pessoas sentadas, acocoradas, ajoelhadas, deitadas no chão e até dormindo. Sob a proteção divina! Em outro canto da cidade existem os templos muçulmanos, onde os “muslins” fazem suas preces e cantorias. Percebe-se nitidamente que não se misturam muito.

Diferenças de religiões. O que é mais bonito, o por do sol ou a lua cheia?

Depois de Yangon e ainda com saudades do Inle Lake, fui a Bagan, antiga capital da Birmânia, em ônibus. Na viagem uma surpresa. Já eram 1 hora da madrugada e uma barreira policial impediu o ônibus de seguir viagem. Os policiais, se dizendo budistas, explicaram que por ser noite de lua cheia, considerado um evento sagrado, não permitiriam movimentação de ninguém  até que o dia amanhecesse. E lá ficamos até as 8 da manhã, entre mosquitos e morcegos, calor de escorrer e muita cantoria. Passageiros, locais, divididos entre o apoio às tradições budistas e “muslins”, muçulmanos, irritados com o contra-tempo, fazendo a tensão ir aumentando a cada minuto e eu, e … um alemão, que também quase não falava inglês, para “tagarelar” e conjeturar sobre os “humanos” e suas diferenças baseadas na religião.  Dia amanhecendo, seguimos até Bagan, famosa por ser uma planície por onde se espalham mais de 13.000 templos! É conhecida como a “Angkor Wat” (região de templos antigos no Camboja) de Myanmar. Só que os templos aqui estão mais concentrados e também muito mais conservados, até por serem de construção mais recente. Por serem todos muito próximos, ao entardecer, todos os turistas que estão na região, se dirigem ao Templo do Por do Sol, congestionando as escadarias íngremes, que permitem chegar ao topo da edificação. Melhor ainda que ver o sol dourando toda a paisagem, é admirar os milhares de templos espalhados ao redor. Ali em cima, se reúne uma verdadeira multidão. Gente de todo o mundo, além de locais de todos os credos, a julgar pelas vestimentas. Cada um fiel ás suas convicções. Mas todos felizes e com a alma renovada pela contemplação da magnífica paisagem, um espetáculo proporcionado pela natureza e pela fé humana. Um momento especial e emocionante, compartilhado por todos. Talvez ali estivessem também algumas das pessoas que estavam no ônibus, na noite anterior, provavelmente ainda remoendo o fato de terem sido obrigados a ficar fora do ônibus, á noite, só por causa de uma lua cheia!                                                                                                                                       E nem lembraram de olhar as montanhas banhadas por uma linda luz prateada!