Diário

07/11/2013 - 03:37 | Postado por:
39- Russia 07/11/2013

Após meses viajando pela Ásia, com ênfase nos países mais pobres, chegar na Russia é um choque. Já tinha me acostumado com as dificuldades para viver no meio de povos em desenvolvimento. Aqui é o primeiro mundo, com todas as suas comodidades. Depois de muito tempo, já sonhava com um bom café com leite quente, pedindo apenas “um Latte”, sem ter que explicar várias vezes como fazê-lo. E mesmo assim, ter que tomá-lo frio e cheio do pó pelas bordas.                                                                                                                                                                             A transição foi muito rápida. Voei de Myanmar para Vladivostok, passando por Seul, na Coréia. Vladivostok é uma cidade portuária e muito grande, na parte mais extrema do leste da Russia. Além disso tudo, fiquei muito contente quando percebi que o sinal de satélites aqui, já permitia ser monitorado com perfeição, usando o aparelho fornecido pela Link Monitoramento, possibilitando que todos pudessem acompanhar todos os detalhes diários, de minha travessia na Russia, clicando no box “onde estou”, da primeira página do site.

Trem Transiberiano

Vladivostok é o marco final da mais longa viagem de trem do mundo. O trem Transiberiano que percorre 9.298 km, saindo de Moscou e atravessa 7 fuso-horários em 8 dias de viagem.                                                                                     Percorrer toda a transiberiana é um sonho para todo aventureiro. Durante anos ouvi e li muito sobre essa viagem. As maiores dificuldades são a distância e o preço. Estando na Ásia ficou mais fácil e o preço de US 500, achei muito justo, até barato.  O bilhete pode ser comprado no guichê de qualquer estação.  Se você quiser  conhecer melhor e ficar uns dias nas cidades ao longo do trajeto, deve comprar  um bilhete para cada parada e prosseguimento.                                                                                                                                            Optei por iniciar a viagem em Vladivostok, pois terminando em Moscou, existem muito mais opções para continuar a viagem para qualquer parte do mundo, além da imperdível São Petersburgo.                                                       Partimos de Vladivostok exatamente na hora marcada, 1 da madrugada. O horário pode parecer estranho, mas, por questão de logística e controle unificado, no relógio do trem eram 18 horas, ou seja, dentro do trem segue-se o horário de Moscou, 7 horas a menos. Assim não se tem a necessidade de ficar ajustando o relógio cada vez que se passa um fuso horário.                                                                                                                                                               Escolhi viajar de 3a classe. É mais barato e muito mais divertido, e não há o que reclamar do conforto e vivência a bordo. Na 2a classe, a diferença é que se tem um pouco mais de privacidade. A acomodação é em cabines fechadas, com dois beliches e uma mesa fixa no centro. Na terceira, são divisórias abertas, combinando 3 beliches. Uma mesa fixa permanente e, durante o dia, uma das camas também vira mesa. Como regra de convivência, os passageiros que dormem na cama de cima, durante o dia tem direito de sentar na cama inferior para comer e conversar. Aqui já cabe a primeira dica! Escolha a cama superior, pois sua cama será sempre exclusiva para você, enquanto a cama de baixo, sempre terá “visitantes”. Isso se você não tiver nenhum problema para “escalar”, o que exige um certo jeitinho, pois não tem uma escada própria para as camas superiores.                                                                                                                                                                                                   Tendo seis vizinhos imediatos, e, por não ter portas, praticamente o vagão todo acaba interagindo.  E é diversão garantida.                                                                                                                                                                                                                O trem para muitas vezes, em várias cidades ao longo do percurso. O tempo de parada varia conforme o tamanho da cidade e o número de passageiros que embarcam e desembarcam. São poucos os que fazem o percurso inteiro, e assim, a cada parada, temos a possibilidade de conhecer  novos vizinhos, novas histórias, e o tédio jamais se faz presente. E, as vezes, somos obrigados a contar de novo e de novo as mesmas histórias. Contar é forma de dizer, porque na verdade, muito mais do que palavras, o que se usa é a mímica e muita vontade de se comunicar. Afinal, esse é o maior desafio, e também, de longe, o maior ganho coletivo de todos que encaram essa longa viagem. A maioria dos russos não falam inglês, mas sua “frieza” lendária, é apenas lendária! Na prática, são extremamente sensíveis e gostam de se tornar amigos de verdade! O ambiente externo, inóspito e frio, lhes impõe uma couraça, que não resiste ao aquecimento de qualquer coração, capaz de emanar o real calor humano!

O Melhor. De qualquer viagem!

Durante a viagem  do Transiberiano a paisagem é praticamente a mesma. Apenas uma vasta planície coberta de pequenas árvores. Muito tempo para pensar e, dentro de mim foi se firmando a noção de que o melhor de qualquer viagem, nunca serão as paisagens, por mais espetaculares que sejam. Na realidade, numa viagem, e por extensão, na vida, o que mais nos marca profundamente são as pessoas!                                                                               As paisagens podem nos impressionar muito, mas depois de algum tempo de contemplação já podemos descrevê-la por inteiro e fielmente. Além das muitas fotos que nos permitem revê-las, iguaizinhas, pelo resto de nossas vidas. Já as pessoas permanecem sempre uma incógnita. E alguém, que um dia pode parecer tedioso, no outro pode nos surpreender de forma inesquecível! E também, por mais que tenhamos tempo de conversar e trocar intimidades, jamais teremos certeza de sabermos perfeitamente, todos os contornos e complexidades, das pessoas que encontramos ao longo de nossos diferentes caminhos.                                                                         Durante os 8 dias de viagem fiz muitos amigos e, em alguns momentos, cheguei até a me sentir “em família”. Talvez isso represente a necessidade humana, nossa natureza, que nos faz realmente felizes, ao dar e receber amor e carinho. Pela proximidade diária, imposta pelo enclausuramento dos vagões, nos tornamos “necessários” uns aos outros. Ao sabermos que alguém vai descer na próxima estação, já começamos a sentir saudades e tentar alguma forma de manter os laços criados em tão pouco tempo. É normal, nessas ocasiões, que nas paradas, as pessoas desçam do trem, apenas para comprar presentes, uns para os outros, e marcar a despedida de forma mais inesquecível.

A Terra que transforma seus ocupantes em Vencedores!

A história da Russia foi marcada por guerras épicas e com desfecho inesperado. Franceses e alemães tentaram invadir e conquistar a Russia, com exércitos muito superiores, obrigando os russos a resistirem de forma quase desumana, levando a guerra há uma duração muito longa e sofrida para ambos os lados. Contra esses dois adversários, impelidos por generais que se sobressaíram na história, por serem excêntricos e gananciosos, a vitória só foi possível com a ajuda da mãe terra, que apelou para a ajuda de um general, esse sim, invencível. O general “Inverno”.                                                                                                                                                                                       Mas, antes desse general entrar em ação, foi necessário que os russos resistissem heroicamente, como no cerco a São Petersburgo, onde os que ainda estavam vivos, tiveram que se alimentar dos mortos. Conta a história, que tal resistência só foi possível graças a vários fatores, entre eles, o fato de os alemães terem chegado exatamente na hora em que, num dos teatros da cidade, muitos moradores estavam assistindo a uma ópera, cuja música, passou a ser tocada em todos os momentos de dificuldade, durante toda a longa e trágica guerra. E esta também foi vencida com a ajuda do General Inverno,  lendário defensor dessa terra de heróicos vencedores!

Moscou e São Petersburgo

Finalizar essa segunda parte da viagem nessas cidades históricas foi extremamente marcante. Andar pelas ruas de São Petersburg é como estar numa grande sala de aula. Durante mais de duzentos anos foi capital da Russia, e, os dirigentes da época ergueram grandes monumentos para dignificar ainda mais a cidade, além de torná-la mais capaz de suportar os ataques de invasores vindos do mar. Também a abertura dos canais, que contornam toda a cidade e permitem a apreciação de todos os pontos turísticos de uma forma diferenciada, contribuiu para torná-la uma cidade muito mais atrativa, sendo hoje conhecida como “a Veneza do norte”.  Moscou foi uma grande surpresa. Eu já sabia que veria grandes monumentos, mas tinha lido e ouvido muito falar sobre a falta de receptividade dos seus habitantes, avessos a imigrantes e turistas, além de ser difícil achar quem fale inglês. Na minha primeira saída do hostel, precisei saber onde comer. No meu primeiro pedido de informação a um russo todo encasacado, este me olhou de cima a baixo, e pediu que o acompanhasse. Me levou até a porta de um ótimo e barato restaurante, numa rua quase só para turistas.                                                                                                                   De volta ao hostel, encontrei o Felipe, um paulista. Me convidou para, no dia seguinte irmos à Praça Vermelha e outros lugares. Andamos o dia inteiro, matando a saudade de falar português. Já eram mais de meia noite quando resolvemos voltar. Antes disse que queria conhecer uma livraria 24 horas, que de tão grande, permitia que os clientes andassem de patinetes entre os corredores. Olhando as prateleiras, procurando pelo livro “Crime e Castigo” – do Dostoievsk -, fomos interpelados em bom português por uma menina de uns 17 anos.           -”Heiii, vocês estão falando português? São  brasileiros?”                                                                                                                 Abriu um enorme sorriso e a conversa engrenou. Se disse uma fã do Brasil, e que fazia parte de uma “escola de samba” russa, e que também não queria perder a oportunidade de praticar a língua, e falar sobre as belezas de nosso país, que sonha em conhecer. Pronto, a imagem da Russia e dos russos era a maior surpresa para mim, em menos de 24 horas na maior cidade do país. No trem já tinha percebido o calor humano, mas era num ambiente fechado. Agora estava apenas confirmando.                                                                                                                                      

História preservada.                                                                                                            

Eu que adoro tomar café, várias vezes ao dia, em lugares diferentes, estava muito á vontade. E com um grande bônus. Praticamente em cada quadra do centro, existem grandes cafeterias, algumas delas dentro de livrarias gigantes. Numa delas, percebi que havia uma área fechada e climatizada. Era o setor de livros antigos. Aqui a história é muito bem preservada.                                                                                                                                                                O maior shopping center da cidade tem 120 anos. Mas parece extremamente limpo e bonito, por fora e por dentro. Mas se olharmos o piso veremos que nunca foi renovado. Ali estão todas as trincas e remendos impostos por séculos. As escadarias com as bordas quebradas na maioria dos degraus. Os parapeitos de mármore, lascados e encardidos. E nada disso consegue tirar o brilho, charme e imponência do lugar! Parece que tudo está perfeito, exatamente como tem que ser, para que, em cada detalhe seja possível “ler” sobre a magnífica história e orgulho russo.                                                                                                                                                       Falando em história, na Praça Vermelha tudo é muito bonito e imponente, mas o destaque é para a Igreja de São Basílio, construído por ordem de Ivan, “O Terrível”. Após o término da obra, observando a extrema beleza , este chamou os arquitetos e lhes perguntou se poderiam construir algo mais maravilhoso do que aquilo. Ante a resposta positiva, mandou que lhes furassem os olhos, para que jamais pudessem construir algo superior.               Somando as livrarias gigantescas, aos cafés aconchegantes e suas delícias, às obras magníficas e muito bem conservadas, cheguei a pensar que seria muito bom se eu morasse em Moscou, e que o nome da cidade, que sempre me encantou, e que em cirílico se escreve Mockba, bem que poderia ser ….. Moshow!!