Diário

04/07/2014 - 20:06 | Postado por:
47 – O Longo Caminho Para a Liberdade 04/07/2014

Montanha da Mesa ao amanhecer, desde Signal hill - Cape Town

Table Mountain ao amanhecer, desde Signal hill – Cape Town

Para quem viaja pelos países menos desenvolvidos do continente africano, convivendo com os locais, usando transporte púbico – “miniBus”, circulando pelos lugares menos turísticos, ao chegar a África do Sul, a primeira impressão é de que chegamos a Europa ou América do Norte. Os altos edifícios, a limpeza das ruas, os jardins, a organização, tudo parece diferente do resto da África. O enorme Hostel onde fiquei hospedado por uns 15 dias em Cape Town, The Backpack, foi um dos melhores de toda essa viagem até agora. Com piscina, restaurante, auxílio a programação de atividades para viajantes, me permitiu o encontro com pessoas de todos os lugares do mundo, brasileiros também, com os quais foi possível dividir custos de passeios na cidade e trocar ideias para novas viagens.

Cape Town - Essa cidade é linda! Quase todos os dias, após o café da manhã, saia andando pelas ruas para tentar absorver a atmosfera do lugar. Tudo ali remete a viagens, aventura, gastronomia, lazer, enfim, a uma vida sonhada por quase todos nós. Em alguns lugares do mundo, sentimos real inveja das pessoas que ali moram. E nos dá uma vontade imensa de ser parte desse “novo e maravilhoso paraíso” recém descoberto. Até namorei umas vitrines de imobiliárias, curioso pelos preços das casas e apartamentos. E o resultado não foi nada mal. Diante dessas primeiras impressões, um insistente …”porque não??” … fica martelando a cabeça.

Para conhecer todos os lugares maravilhosos de Cape Town são necessários ao menos um mês. São muitas as praias, as vinícolas, os parques e atrações. No estacionamento da Table Mountain encontrei um casal de “guias de turismo” brasileiros que moram na cidade. Quando souberam que eu era brasileiro, me perguntaram se eu falava inglês, e se não queria ficar trabalhando na cidade, dada a falta de guias falando português, e a recente onda de turistas brasileiros que estão descobrindo as belezas daqui e invadindo a cidade, e toda a África do sul. Realmente, todos os dias encontrava muitos brasileiros, em contraste com o resto do continente, até ali, onde não encontrara nenhum.

Das muitas atividades na cidade, apenas na atração mais famosa, a “Table Mountain, pode-se gastar mais de 8 dias. É possível subir de bondinho, ou, para quem está em boa forma, fazer um trekking médio numa das 14 trilhas disponíveis, ou ainda, fazer uma escalada, com diferentes níveis de dificuldade, capaz de satisfazer os mais exigentes escaladores.

Para quem gosta de vinho, só na cidade, tem mais de 50 vinícolas. A mais antiga, também uma das mais bonitas, Groot Constantia, foi fundada em 1.685 pelo governador holandês da época. Na propriedade tem dois restaurantes de nível internacional. O vinho ali produzido foi o preferido de muitos reis e imperadores, entre eles, Napoleão Bonaparte.

Para mim, o passeio mais bonito foi a ida até Cape Point e ao Cabo da Boa Esperança. Não só pela importância histórica, mas principalmente pela indescritível beleza da estrada, entre a montanha e o mar, com “lookouts” onde se tem vontade de ficar admirando a vista por horas.

A obrigatória Garden Route e a Rota 62

Já tendo lido muito sobre as belezas de uma das mais famosas rodovias cênicas do mundo, queria muito poder explorar todos os segredos e encantos de toda a Costa sul africana, Garden Route e, da mais bela ainda, Rota 62. Procurei por todas as opções disponíveis. Alugar um carro me pareceu um pouco caro, mas se pudesse dividir os custos com alguém seria bem melhor. Maaaas… em cima da hora, achar um desconhecido que tenha a mesma disponibilidade e “manias”, ou seja, queira parar a cada 10 minutos só para ficar fotografando por, no mínimo uns 30 minutos e só pare para comer pela manhã e à noite, e ainda, que deixe que……..apenas eu dirija!!! Por tudo isso essa alternativa foi deixada de lado.

Tinha ainda a opção de usar o “BazBus”. Um ônibus/Van, que circula por todos os melhores “points” dessas rotas, deixando os viajantes na porta dos hotéis/hostels. Verifiquei os preços da condução, e acrescentei os valores de hotéis e comida por uns 13 dias. Tudo somado, comparei com uma outra opção, que antes tinha achado fora de propósito. Viajar com uma empresa que organiza expedições por muitos países da África. Considerando todos os fatores envolvidos, tais como, riscos e preocupações, na ponta do lápis, essa opção se revelou um ótimo custo-benefício. E, por sorte minha, a continuação da viagem pela África acima, via Namíbia, um verdadeiro sonho meu, era um dos roteiros mais completos executados pela companhia. Olhando um livreto com todos os dias bem detalhados, rota e atividades, repleto de fotos, notei que o roteiro da Garden Route e Rota 62 começaria dali há dois dias, terminando 13 dias depois, sendo que no dia seguinte ao término dessa, começaria a outra expedição, para a Namíbia. Tudo pareceu ser sob encomenda para minhas necessidades. Além disso, essa experiência de viajar com um caminhão adaptado para expedições, dormindo em barracas, com lautos café, almoço e janta, em lugares escolhidos a dedo, era algo que atiçava muito a minha curiosidade. Muito satisfeito e ansioso para a partida, me inscrevi e paguei – U$ 1.000 por cada uma das expedições.

Na estrada, com estudantes americanos! …e o resto do mundo!!

A opção de passar uns dias viajando “se deixando levar” se revelou muito boa. A novidade foi descobrir que estudantes americanos e europeus usam essa opção com muita frequência, como parte do currículo escolar. Vem com os professores, e o período é considerado de aulas normais. Uma inserção completa para os alunos. Quem sabe um dia nossas escolas cheguem a esse nível. Também foi muito bom ver como esses estudantes levam a sério seus estudos e mais ainda, como interagem com os outros viajantes, se prontificando a ajudar em todas as tarefas, como lavar pratos, fazer as refeições e armar/desarmar as barracas para os outros.

Já na viagem seguinte, o grupo era totalmente heterogêneo. Gente de todas as partes do mundo, mas falando uma só língua. A da aventura, descobrimento e também da interação completa entre as mais diversas culturas. Uma grande e proveitosa experiência!

Um continente diferente

Desde que comecei a viagem pela África, no Egito, depois Etiópia, Zâmbia, Tanzânia, Lesotho, Namíbia e África do Sul, percebi como esse continente é diferente. Para dar uma ideia, a taxa média de desemprego em toda a África, entre os jovens, 16 aos 24 anos, é de 28%! E em alguns países chega a mais de 40%. E os mais velhos e aqueles que tem emprego, o salário médio é de U$250. Para os outros, resta o ócio ou o trabalho informal, e para estes, a renda mensal vai de US 200 a U$ 20!! E em todos os lugares se vêem pessoas sentadas, em grupos, durante a maior parte do dia, aguardando por uma oportunidade qualquer, curtindo o destrutivo ócio, ou mesmo, a espera de um milagre, que mude os rumos de uma vida sem esperança.

As altas taxas de crescimento económico dos últimos anos na África tem sido ás custas do sub-emprego, ou do emprego com sub-salário, nas empresas multinacionais que aqui vem, em busca de produtividade a baixo custo. É uma nova forma de escravidão. Muito maior que a antiga, onde os escravos eram levados a outros países. Agora os “senhores” perceberam que é mais conveniente e barato vir aqui e fazê-los trabalhar, tratando-os como escravos, em sua própria pátria. Fica muito mais fácil repor a mão-de-obra insatisfeita ou incapaz.

Apenas uma minoria tem altos salários e uma vida digna. E esses não se importam com o restante. E, finalmente o que se percebe, é que os “brancos” ainda ditam todas as regras. Afinal, um “Apartheid” que nunca termina.

O Apartheid!!

Durante a viagem com os estudantes americanos, notei que um tema recorrente na fala dos professores era o “Apartheid”. E cada aluno tinha que dar sua interpretação sobre um livro, escrito pelo ex-presidente sul africano, Nelson Mandela, entitulado “O Longo Caminho Para a Liberdade”. Não cheguei a ler o livro, mas ouvindo algumas “aulas” ministradas pelos professores durante alguns dos percursos mais longos da expedição com a Nomad, percebia que se tratava de um tema muito apaixonante, complexo, além de atual.

O Apartheid, em “africâner”, na língua nativa dos negros,  “separação”, foi um regime político de segregação racial, adotado entre 1.948 e 1.994, por sucessivos governos do Partido Nacional da África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes, foram cerceados por uma minoria branca. Conforme os líderes políticos brancos, a África do Sul não era uma só nação, mas quatro nações, formadas por quatro grupos raciais diferentes: brancos, negros, mestiços e indianos.

Um dos líderes brancos, um clérigo luterano, assim justificou a separação:                                                  ”A política de segregação racial se baseia nos princípios cristãos do que é justo e razoável. Seu objetivo é a manutenção e a proteção da população europeia do país, como uma raça branca pura, e a manutenção e a proteção dos grupos raciais indígenas como comunidades, separadas em suas próprias áreas. Ou seguimos o curso da igualdade, o que no final significará o suicídio da raça branca, ou tomamos o curso da segregaçao.”

Já antes de 1.948 havia essa separação, mas após tornar-se oficial, os que não eram brancos foram retirados à força para residir em áreas de exclusão. E tinham que portar passes específicos, quando em passagem por áreas diferentes das suas. Assim também foram diferenciados os serviços públicos, a saúde e a educação.

Placa da época do aparthaid

i Placa da época do Aparthaid

Grandes revoltas populares, além de outras perturbações sociais, se seguiram durante anos, sempre terminando com a prisão dos revoltosos e o recrudescimento do regime. Outros países chegaram a impor sanções a África do Sul, sem resultado algum. Apenas em 1.980 foram sancionadas algumas novas leis tentando amenizar os problemas, mas estas também acabaram não tendo nenhum efeito positivo.

Foi só a partir de 1.990, com o Presidente Frederik de Klerk que foram iniciadas negociações efetivas para o término do regime. E após quatro anos de muita discussão, foram realizadas eleições democráticas e multirraciais, através das quais foi eleito um presidente negro, que entrou para a história, como o personagem mais famoso da África do Sul, o grande líder Nelson Mandela.

E as mudanças começaram a acontecer positivamente, culminando com o que hoje se conhece como um país rico e o mais atraente da África, para turistas de todo o mundo, que aqui podem vir e maravilhar-se com tantas belezas naturais, além de ter a satisfação de poder se comunicar com o povo negro ou branco, que agora convivem em harmonia.

A Liberdade – Um longo caminho!

Passeando pelas ruas de Cape Town, entrando nos imensos shoppings, bons restaurantes, alguns supermercados, pude observar que na maioria desses lugares havia sempre uma placa com os dizeres: “Right of Admission Reserved”.

 Right of Admission Reserved

Right of Admission Reserved

Apesar de todo o sofrido, heróico e histórico avanço, ao se observar mais atentamente o comportamento das pessoas, pode-se notar que ainda há muito caminho para ser trilhado, passo a passo, até uma real liberdade e igualdade. Afinal, as placas avisando que ainda é possível alguém ser proibido de entrar em qualquer lugar, apenas porque o proprietário, o responsável, o guardião, não quer, por motivos subjetivos, sem direito a contestação alguma, estão espalhadas por todo o lugar, e são normalmente aceitas. Ainda é um Direito agir assim!!

Conversando com o Frank, motorista do caminhão da Nomad, morador de Joanesburgo, com o qual, por muitos dias, dividi algumas garrafas de Savanah Dry, uma gostosa cerveja africana, ele me disse já ter sido barrado até em açougue de mercado. Mas, sorrindo, acrescentou: “Fiz a maior confusão! Não aceitei e dei uma lição de moral pra todo mundo ouvir. Enfrentei e obriguei o guarda a me respeitar como cidadão igual a todos os brancos que ali estavam!”

Essa atitude ainda é rara, se observarmos todo o restante do continente africano. Os baixos salários, o desemprego, a atitude conformista, a necessidade de supervisão no trabalho, a forma passiva como se submetem ás críticas e exigências dos outros, revelam como os negros ainda estão distantes de usufruírem de uma liberdade que lhes foi outorgada no papel.

E o que se percebe na prática, é que a liberdade não é algo que se adquire por acordos nem decretos. Liberdade é um sentimento da alma. Não vem de fora para dentro. Não existe lei alguma que liberte a alma de alguém. Depende de cada pessoa, através da educação, da conscientização, seguida da reflexão individual acerca de toda a sua capacidade e importância como pessoa, seu valor humano e seu papel na sociedade.

Ser livre exige o esforço individual para quebrar a corrente, que escraviza a mente, não um corpo físico.

Além de todos esses fatores, ainda há que se considerar outros motivos que mantém os povos africanos como dependentes de ajuda externa.

ONGs, parte da corrente que escraviza!

Viajando por boa parte da África, pode-se observar a presença maciça de ONGs, cuja realidade é bastante complexa e causa controvérsias.

O número é muito expressivo e revelador. Estão em atividade mais de 40.000 ONGs na África! E esse número não pára de crescer!

Existem estatísticas, de difícil comprovação, que afirmam que 60% do dinheiro enviado acaba nos bolsos de elites corruptas, o que leva a pensar que o verdadeiro problema de África é a ajuda humanitária. Ou seja, grandes burocracias, corrupção, o fim da iniciativa e mercados locais enfraquecidos. O economista William Easterly, no seu livro O Fardo do Homem Branco, estimou em 2,3 bilhões de dólares, o dinheiro investido em ajuda humanitária nos últimos 50 anos, para resultado quase nulo que se pode observar. Em 2005, a ajuda internacional foi superior a 106 mil milhões de dólares, segundo estimativa da ONU.

E muitas dessas ONGs, envolvidas em ajuda humanitária, aparecem nos jornais pelos piores motivos, como no caso da ONG “Arca de Zoé”, que tentou levar 103 crianças do Chade para França, alegando que se tratava de órfãos. Em março de 2.006, o governo da Eritréia expulsou varias agências do país, por constatar irregularidades na distribuição de comida. Em 2.004 Gana também expulsou centenas de ONGs, após constatar que, das 3.000 ativas no país, apenas 150 apresentavam os relatórios de atividades exigidos pelo governo.

Todas essas controvérsias e escândalos, no entanto, não podem condenar a ajuda humanitária positiva e necessária, efetuada por algumas organizações internacionais. Afinal, é muito difícil avaliar e julgar de forma indiscriminada. Quantas pessoas morreriam sem a ação dos Médicos Sem Fronteiras, ou da Oxfam – Comitê Oxford de Combate à Fome?

Após tudo que aqui observei e vivenciei, de todos os números e constatações referentes a infinidade de ONGs e sua ineficácia de modo geral, fico a refletir sobre minha atitude. De ter decidido viajar  e, antes de sair, ter me questionado sobre “como poderia contribuir positivamente nos lugares que iria passar? 

E fiquei muito feliz em ter decidido, no meu Projeto de Viagem ao redor do mundo, agir de forma individual, distribuindo escovas de dentes junto às pessoas carentes. Uma atitude isolada, sem procurar fazer parte de organização nenhuma, onde o aporte de dinheiro pode fazer aparecer o lado “menos racional” do ser humano. E tenho noção de que sozinho jamais poderei mudar a situação sub-humana em que vivem muitas pessoas. Mas tenho certeza, que se mais e mais pessoas decidirem dedicar parte de sua vidas, a fazer alguma coisa de concreto, certamente estaremos construindo um mundo mais humano e com mais igualdade entre raças e níveis sociais, e, finalmente, livre da esmola humilhante da escravidão da mente.