Diário

20/11/2014 - 02:04 | Postado por:
50 – Encantadores de Pessoas! 20/11/2014
Olhar! Curiosidade mútua.

Olhar! Curiosidade mútua.

Após meses na África, era chegada a hora de ir pra Europa, encontrar a Rosiane, que após árduos meses de esforço, conseguira viabilizar sua vinda, possibilitando estarmos um pouco juntos nesse final de viagem. Para celebrarmos esse encontro, programamos um roteiro bem pessoal e intenso. Resolvemos começar voltando, logo de cara, para a África! Sim, aproveitando a proximidade do Marrocos com o sul da Espanha, logo após sua chegada a Madrid, partimos de ônibus para Casablanca, cruzando o estreito de Gibraltar em ferry.                                                                            São apenas 2 horas de travessia que separam dois mundos completamente diferentes. Mudam os costumes, a paisagem e a religião dita o modo de vestir. É como entrar num túnel do tempo.

Nossa primeira parada foi em Casablanca. A diferença aqui ainda não é tão radical. Mas já se percebe que nas centenas de cafeterias e casas de chás espalhadas pela cidade, apenas os homens, costumam passar horas sentados nas mesas das calçadas, conversando e apreciando o movimento, enquanto as mulheres tratam das coisas da casa e cuidam dos filhos. Não é um cenário simpático para os turistas, que preferem frequentar apenas as praias da cidade.

Passados três dias, pegamos um trem para Marrakech sob grande expectativa de poder apreciar o Marrocos de nossos sonhos e fantasias. Apenas a título de informação, no Marrocos a melhor forma de viajar, e a mais barata é mesmo o trem.

Normalmente não procuro me informar muito sobre o local para onde viajo. Prefiro deixar-me surpreender com o novo e inesperado. Chegando em Marrakech de trem, a paisagem na janela é de uma cidade grande como muitas outras. Alguns prédios, ruas largas e trânsito intenso. Ao procurar pelo endereço do hostel que havia reservado soube que ficava na “Medina”. O lugar onde estávamos era a cidade nova e a Medina era a cidade velha, encravada, engulida pela cidade grande e nova que foi crescendo ao redor. O táxi rodou por praças, parou em engarrafamentos, passou por um Mac Donalds e chegamos numa muralha gigantesca e contínua. Ali dentro ficava a Medina. . Seguimos até achar um abertura, entramos e, logo percebemos ser um amontoado gigantesco de casas, lojas, restaurantes e grande concentração de pessoas. Uma cidade dentro de outra cidade. A partir desse momento, realmente nos sentimos em outro mundo. Já não haviam mais ruas largas e os carros eram poucos. E as pessoas se aglomeravam nas vielas, dividindo espaço com charretes, bicicletas e motos. O motorista do  táxi já foi informando que poderia nos levar apenas até a praça principal da medina, a partir da qual teríamos que seguir a pé, pois nas vielas mais estreitas não podem circular automóveis.

Um outro mundo

A tal praça é enorme, considerada patrimônio da Unesco, e seu nome, Jemaa el-Fna, pode ser traduzido como “Assembléia dos Mortos”, pelo fato de há séculos atrás, o local ser usado para punir os criminosos, matando-os e expondo suas cabeças para servir como exemplo.

Hoje é um grande ponto de encontro de moradores, comerciantes, acrobatas, faquires, curandeiros, músicos, dançarinos, engolidores de espadas, vendedores de comidas e especiarias, encantadores de serpentes. Na verdade, todos eles são encantadores de pessoas, milhares de turistas que não cansam de circular entre cada uma das atrações, tentando fotografar, “sub-repticiamente”, tudo o que conseguir. Sim, cada clique deve ser cuidadosamente planejado se não quisermos pagar. Cada “artista” fica de olho e ainda conta com “olheiros” para ver quem está tirando fotos e cobrar um valor aleatório. Chega a ser curiosa a forma como alguns turistas tentam se esconder, e como reagem, após serem “descobertos” e tentam fugir, seguidos dos “cobradores” furiosos. Afinal,  todos ali estão trabalhando e esperam ser pagos se alguém quiser fotografar suas performances.

Ao redor da praça, dezenas de cafés e restaurantes com mesas espalhadas pelas calçadas, sempre lotados, principalmente aqueles que tem andares superiores, onde os turistas se aglomeram para ver o pôr-do-sol, apreciar a praça de um ângulo superior, e ainda poder tirar umas fotos sem serem cobrados.

Perder-se é bom!

A partir da praça, com as mochilas nas costas, o desafio real agora, era achar o nosso hostel no meio de um labirinto de ruelas sem identificação. O jeito era ir perguntando. E, após perguntar a alguém, o outro desafio era se livrar dessa pessoa, tentando explicar que não era necessário que nos acompanhasse. Já tínhamos sido alertados. Ali ninguém perde a oportunidade de ganhar algum dinheiro. E as vezes o valor cobrado pela informação ou acompanhamento, é muito acima de uma simples gorjeta, podendo gerar problemas.

Seguindo com a sensação de “perdidos, bastava um olhar para o outro para perceber nossa felicidade de ali estarmos. Achar o hostel já nem nos preocupava. Já havíamos achado tudo o que nossa imaginação, nem em sonho poderia nos trazer. E a vontade era continuar “viajando” naquele mundo novo e colorido. Lojas de roupas, especiarias, lanternas, chás, antiguidades, perfumes, tudo em verdadeiros e longos corredores, calçados de pedras, iluminados pela luz do sol que penetrava pelas esteiras de palha das coberturas.

O hostel ficava numa viela estreita, um pouco afastado do burburinho. Mas era apenas uma porta num muro alto, onde não se viam janelas. Se não fosse pelas seguidas indagações, jamais saberíamos que ali seria o nosso destino, o lugar que nos acolheria por alguns dias. Após bater na porta com uma velha argola de ferro, alguém veio nos receber com um sorriso, como se fôssemos ansiosamente esperados.

Do lado de fora do hostel não se pode ter idéia do que existe dentro do prédio. Ao entrar nos deparamos com um grande jardim com um chafariz no meio, mesas e sofás para os hóspedes, e uma pequena piscina com hidromassagem. Toda a parte central é aberta para o céu azul, e os quartos ficam ao redor dessa área central, distribuídos em quatro andares.

Nos encantando!

Nos dias que ficamos em Marrakech, nossos passeios se resumiam a sair e perambular pelos labirintos da Medina. Visitamos alguns lugares históricos e museus, mas o que mais gostávamos era, ao final da tarde, nos sentarmos em algum café da Praça Jemaa el-Fna e ficarmos degustando um chá e admirando o movimento, as pessoas, o ser humano, Nós!! Sim, pois há lugares onde o que nos maravilha não são as vistas fantásticas, os lagos ou as montanhas, ou ainda as mega construções. E, praticamente todas as fotos que acompanham esse post mostram apenas pessoas. Diversidade!! Fisionomias, jeitos de vestir e ser, diferenças entre costumes e o lugar onde isso tudo pode ser apreciado. 

Aqui encontramos um lugar onde o espetáculo, que realmente nos encanta, são os humanos, Nós mesmos!