Diário

06/01/2015 - 06:53 | Postado por:
52 – Na Terra do “Super Ove” 06/01/2015
"Kjerag" - Um desafio real

“Kjerag” – A “cereja no bolo”, no final de uma trilha difícil, na Noruega

Para ir da Africa em direção a Europa, em função do preço das passagens aéreas, não existem muitas opções. Os países que tem vôos frequentes para outros continentes são apenas a Etiópia e África do Sul. Em todos os outros as opções são poucas e caras. Mas um deles com uma opção interessante é na Namíbia. Como existe um intercâmbio muito grande com a Alemanha, por ter sido o país que mais ali fixou raízes, há um vôo, que sai da capital, Windhoek , direto para Frankfurt, que é a forma mais barata de viajar do sul da África para a Europa. Depois, estando na Europa, os deslocamentos dentro do continente europeu, se tornam muito fáceis e baratos, quer seja de avião, trem ou ônibus. Precisando encontrar a Rosiane em Madrid, bastaria comprar uma passagem de Frankfurt para a Espanha e pronto. Mas, vida de viajante nunca é fácil. Principalmente se ele for curioso! Pesquisando os preços de passagens na Europa, percebi que não era tudo tão barato como se dizia. Quase o mesmo preço de ir da África para Frankfurt, era o que eu pagaria para ir dali para Madrid. Resolvi pesquisar mais  e descobri que se eu quisesse ir dali para visitar um lugar bem mais longe que Madrid, e que há muito atiçava minha imaginação, pagaria o mesmo preço. Sem pestanejar, marquei a passagem. A gelada Noruega seria meu próximo destino. Odeio sentir frio, mas adoro lugares frios! Basta usar roupas adequadas. Lagos, fiordes, geleiras e glaciares, a aurora boreal, a ilha de Svalbard no extremo norte, a história de grandes desbravadores polares como Roald Amundsen e outros, tudo isso, há muito tempo colocara a Noruega como o meu país preferido e sonhado, já muito antes de pensar em “volta ao mundo” e outras viagens.

“Sonhar ou não sonhar”. Eis a questão!

E lá fui eu pra Noruega. Feliz da vida, já me acostumando a trocar o “sonhar” com o “querer e executar”!

Melhor que sonhar é realizar algo que, podendo ser apenas um sonho, resolvemos simplesmente, executar!! Desde as vivências da Etiópia já tinha começado a me questionar, se o fato de termos muitos sonhos, ou viver estimulando o hábito de sonhar, não é o que nos torna infelizes. O acúmulo de sonhos não realizados, ou a efemeridade de alguns sonhos, muitas vezes nos levam a frustrações em sequência. Até chegamos a nos vangloriar de ter muitos sonhos, renovando-os a cada aniversário ou  passagem de ano!  E sonhamos com tudo, desde um novo celular a um novo filho, carro, sapato, loteria, namorada. Achando que apenas quando pudermos realizá-los é que seremos mais felizes ou, plenamente felizes! E esse dia jamais chega, pois sempre estamos a substituir sonhos, por outros novos sonhos, correndo o risco de nunca estarmos satisfeitos com o que temos ou vivemos no momento presente.

No Reino do “Super Mario”

Poder estar na Noruega, andar pelas ruas de sua capital, Oslo foi realmente sentir-se dentro de um sonho. Mas a realidade não demorou a se impor. Dentre as 10 cidades mais caras do mundo, duas – Stavanger e Tromso – estão na Noruega. Seus habitantes, quando viajam, estão acostumados a serem tratados como reis e rainhas, por causa do poder aquisitivo de sua moeda e terem muito dinheiro pra gastar, sendo o povo que tem a maior remuneração do mundo, entre salários e benefícios.

Minha maior preocupação, depois que marquei a passagem, era saber como iria sobreviver naquele país. “Hostels”, comida, transporte, passeios, tudo extremamente caro. Assim resolvi ficar apenas pelo tempo suficiente para poder dizer, pra mim mesmo, que “conhecia a Noruega”. Três dias e já seria um rombo no orçamento. Mas, existe algo a mais sob o céu, além das coisas normais e explicáveis.

Respondendo a uma pergunta de um de meus filhos, que me questionou sobre quanto tempo iria “curtir” o país, disse que estaria indo embora, obrigatoriamente dali a dois dias. E ele prontamente me repreendeu:

- “Também, quem manda você sair do país mais barato do mundo, direto pro mais caro, sem consultar bem as coisas!!” E, após uma pausa, acrescentou: - “Maaas….pera aí. Lembrei de um cara que encontrei num metrô, quando estava em Kuala Lumpur, na Malásia, a caminho do aeroporto. Ele se aproximou de mim com uma historia meio esquisita, de eu ser muito parecido com um filho seu. Conversamos um pouco e soube que ele gostava muito de viajar, motivo pelo qual, disse a ele que deveria conhecer meu pai. Lembro que disse que morava numa cidade chamada Randaberg, aí na Noruega. Acho que ainda tenho o e-mail dele por aqui. Se achar, tento falar com ele e vamos ver o que acontece.”

No dia seguinte, após caminhar o dia todo, antes de dormir abri meus e-mails, só por abrir mesmo. E lá estava um e-mail de um tal Ove Johan Harestad. Escreveu muito pouco. Só queria saber exatamente onde eu estava hospedado e quanto tempo  eu tinha disponível pra ficar na Noruega. Respondi que seu país era como um sonho para mim, e que adoraria até mesmo poder viver ali. Se pudesse! Mas que face ao alto custo, no dia seguinte já iria procurar um destino mais adequado ao meu bolso.

Logo recebi a resposta:

- “Amanhã ao meio dia, estarei aí na frente de seu hostel. Vamos viajar. Esteja pronto!”

Um autêntico Nômade!

Só quem é realmente viajante, adora o desconhecido, tem alma e DNA ainda intocado, e que revelam nossas verdadeiras origens, é capaz de entender algumas atitudes. São pessoas que sabem reconhecer imediatamente quando, raramente, encontram seus iguais. Os últimos Nômades!! Espécie em extinção, incapaz de se satisfazer com este “mundo novo” e suas infinitas possibilidades. Tanto prazerosas quanto escravizantes. Plenamente justificadas por seu recheio de inseguranças, perigos, facilidades e comodismo.

Dia seguinte, ao meio dia, olhando pela porta de acesso, pude observar quando uma velha Toyota Hiace entrou pelo beco do hostel e manobrou, com muita facilidade, para estacionar espremida entre os outros carros. Não tive dúvida quando a porta abriu e vi descer um homem vestido com um macacão azul e laranja, boné e bigode. De imediato o associei com um personagem famoso dos video-games. Ali estava o Super Mario em pessoa. Desceu, olhou na direção da porta, me viu e veio vindo. Sem dúvida, é ele.

- “Olá Ove Johan Harestad. O meu filho disse que você parecia ser  um cara legal. Já vi que é bem mais do que isso. Muito obrigado por vir me socorrer!”

- “Mauro, eu sei quem você é. Já li todas as suas histórias no seu site!!

- “Heiii, Ove, eu vi pelo mapa que você está vindo de uma cidade a mais de 500 Km daqui. Deve estar bem cansado. Posso dirigir enquanto descansa um pouco.”

- “Hahahaaaaa…… aqui o motorista sou eu. Se quiser brigar comigo peça pra dirigir o meu carro. Vim por um caminho mais curto e vamos voltar pelo mais longo, passando pelas estradas  que cruzam as montanhas e fiordes. Quero te mostrar todas as belezas da Noruega!!”

- Hahaaaaa…… então já somos inimigos. Odeio sentar no banco de passageiro! Mas…. acho que vou adorar esse caminho!!!”

E assim começamos a reconhecer que tínhamos muito em comum, e que nem era preciso falar pra saber o quanto teríamos a desfrutar desse encontro inesperado e providencial. Sobre isso, o Ove ainda acrescentou:

- “Primeiro Deus fez o mundo. Depois ele ficou pensando em como iria fazer para o Ove Johan da Noruega, conseguir encontrar o brasileiro Mauro.” Tudo muito simples e óbvio. Um amigo encaminhado pela providência divina!

Paramos várias vezes para tirar fotos de casas, pessoas, ovelhas, lagos e também para tomar café, comer cenoura e ovo cozido, uma de suas dietas preferidas. Em certo momento notei a foto de sua esposa junto ao velocímetro. Ele justificou dizendo ser seu anjo da guarda e por isso sempre a leva junto, ajudando a tê-la sempre presente. Podia olhar para ela sempre que quisesse. Dei risada e lhe disse que também tinha um jeito de manter minha amada sempre na lembrança:

- “E eu, mesmo muito distante, posso cheirar a minha, todos os dias, a qualquer hora!”

Ele riu achando ser apenas uma brincadeira e aproximei a pulseira de meu relógio junto ao seu nariz. Ele cheirou e perguntou: – “Hummmm…..  parece muito bom. O que é isso?”

- “O cheiro dela!! Sempre que chego a alguma cidade ou aeroporto, logo procuro pelo mesmo perfume que ela usa. Peço pra usar a amostra e coloco aqui nessa almofadinha colada na pulseira. Nas situações difíceis ou em qualquer momento que queira, basta aproximar a pulseira do nariz, e a lembrança dela sempre me deixa feliz e relaxado.”

O engraçado é que, quando fiquei por mais de um mês em Windhoek, na Namíbia, o tal perfume estava disponível numa farmácia central, por onde eu passava quase todos os dias. A moça que atendia no balcão dos perfumes, cuidando pra que apenas os potenciais compradores usassem as amostras, gostara da história e sempre que me via passando chamava:

- “Heiiii…… pode vir aqui colocar mais cheirinho da tua mulher”! E enquanto colocava o perfume ia explicando o motivo para os outros clientes.

Entre túneis e Ferrys

A Noruega é um país entrecortado por lagos, ilhas, fiordes e montanhas. Por causa disso, a construção das estradas  constitui um gigantesco desafio de engenharia. Para ir de uma cidade a outra, e até mesmo para ir de um bairro a outro da mesma cidade, temos que utilizar muitos tuneis. É nesse país se encontra o  Túnel de Lærdal, com 24,5 km, sendo o mais longo túnel rodoviário do mundo. Liga a capital, Oslo a Bergen. Para sua construção, abrindo rocha maciça, foram usadas diferentes equipes de trabalho. Uma no início, outra no final, e mais uma no meio. Utilizaram sistemas de navegação por satélite para determinar o ponto de partida exato de cada equipe, como também, feixes de laser para guiar a direção das escavações, os quais controlavam ainda os movimentos das sondas de perfuração. E onde não se usam túneis, lá estão os ferrys, trabalhando 24 horas. Atualmente já está em estudo a construção de um túnel para navios, ligando fiordes com abertura para o mar.

A difícil geografia da Noruega o torna um dos países com as paisagens  mais bonitas do mundo. Para mim, sem dúvida, acima de qualquer outro! Viajar por aquelas estradas é não parar de se surpreender a cada curva. E quando pensava ter apreciado a paisagem mais maravilhosa de toda a vida, logo a frente surgia outra, capaz de humilhar a anterior.

Super Ove em ação.

Enquanto estive hospedado na casa do Ove Johan, em Randaberg, pude fazer três viagens inesquecíveis.

Na primeira, juntos, fomos a um lugar que está entre os 10 mais fotografados do mundo. “Preikestolen”, ou, a Pedra do Púlpito. Após uma pequena viagem por uma estrada sinuosa e linda, fizemos uma longa trilha de umas duas horas de dura caminhada, até chegar no topo de uma rocha imensa, formando um púlpito de 560 metros de altura, na beira de um fiorde. Após o esforço  para chegar até o alto, o desafio é criar coragem para ir até a borda e poder tirar uma foto olhando para baixo. Dá vertigem só de olhar. Há quem diga que um dia a tal pedra vai despencar sobre o fiorde, gerando uma onda gigantesca.

A outra viagem foi um pouco mais “inesquecível”! O Ove não tinha disponibilidade, mas me cedeu sua Toyota para ir cumprir outra visita obrigatória para verdadeiros aventureiros que vão a Noruega.  E ele, praticamente me “intimou” a ir. Após novo trecho de belas estradas e tuneis, tive que encarar uma trilha dificílima, numa “escalaminhada” escorregadia e extenuante. Por mais de três horas, me esfolei nas pedras, até chegar ao topo de duas rochas gigantescas, paralelas, na beira de outro fiorde. O detalhe é, que não se sabe de onde, mas, uma outra pedra escorregou e acabou entalada entre as rochas maiores, logo abaixo do cume, a 1.100 metros de altura. “Kjérag” é o nome da coisa. A pedra entalada tem formato arredondado. A foto clássica é tirada sobre essa pedra. O jeito é  dar a volta pela rocha maior e dar um pulo para subir na menor. Logo após o pulo tem que estancar e ficar imóvel, sem escorregar na areia deixada pela sola das botas. Então é só sorrir, ou melhor, … tentar sorrir para uma foto que nunca mais será esquecida. Mais da metade dos que chegam ao topo, não conseguem subir na pedra suspensa para concluir o desafio. Pelo exposto, muito compreensível.

E a última viagem foi um convite  que só uma pessoa como o Ove poderia fazer.

- “Heiiiii…. topa viajar dois dias em direção ao norte, até a cidade de Forda!?”

- “Verdade!?”

- ” É que uma amiga que trabalha num hospital naquela cidade disse que eles vão entregar três ambulâncias para reciclagem e receber U$ 2.000 por cada uma, pagos pela prefeitura local. Como eu trabalhei há alguns anos atrás, como missionário, na Albânia, um pais muito pobre, desolado por guerras internas, onde os hospitais não tem nenhum recurso, essas ambulâncias poderiam servir por muitos anos ainda. E ainda, do hospital me disseram que se eu comprar duas, me darão a terceira de graça. Só preciso de mais um motorista que me ajude a trazer as ambulâncias até aqui. Depois, ainda gostaria de contar com a tua ajuda para levá-las até a Albânia, numa data  a ser marcada, após certos trâmites burocráticos. Até já dei um jeito de irmos até o norte. Uma locadora daqui, precisa de dois motoristas, para levar dois carros para clientes, por coincidência da mesma cidade das ambulâncias. E vão me pagar por isso. Vai sair tudo de graça. Topa!!”

Na verdade tal proposta mais parecia um autêntico milagre. São as tais “realidades” que nem os mais inimagináveis sonhos podem conceber. Pode até parecer extraordinário aos olhos de muitos, mas, ali, conversando com o Ove, parecia algo rotineiro, para um coração grande, acostumado a bater no compasso ditado satisfação de fazer o bem.

E isso foi apenas o começo de uma história de aventura e também de vida e exemplo.

Parabéns Ove Johan!

Os detalhes dessa aventura conto no próximo post.