Diário

04/02/2015 - 03:06 | Postado por:
53 – Driving For Change 04/02/2015
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Chegando na Albânia – Aduana

“Driving For Change!?”

 Os amantes da música de um movimento chamado “Playing For Change” – www.playingforchange.com- , se encontram ao redor do mundo, fazendo belíssimas performances, cantando grandes sucessos para arrecadar dinheiro com finalidades sociais, além de propagar o gosto pela boa música. Sempre que posso gosto de ouví-los.

Pois é, aqui vai a história de uma aventura que me fez lembrar e sentir como isso pode ter começado, e como nos faz sentir muito melhores e capazes de algumas mudanças, não importa o tamanho. Pessoas de diversas partes do mundo que se encontram para …. dirigir….. proporcionando mudanças!

Um sonho dentro de outro…. e dentro de outro, e…

Estar na Noruega, para mim, já era um sonho realizado. E , como relatado no Post anterior, ficar conhecendo, por bastante tempo, aquele país de vida cara, sem gastar rios de dinheiro, tendo “encontrado” o Ove Johan, um total desconhecido, que virou um “velho e querido amigo”, me cedendo sua casa, transformando-a em “nosso camping”, foi algo totalmente incrível.

E lá estava eu curtindo os dias ensolarados do finalzinho do verão do norte até que um dia o Ove perguntou se eu estava “livre” para viajar!!! E estava falando sério. Uma locadora de veículos precisava de dois motoristas para levar seus carros, dois Skoda Octavia, até uma cidade chamada “Forda”, distante uns 750 Km de Stavanger.

E lá isso é “convite” pra mim!!?? Só rindo mesmo né!!

- “Você tá falando sério? É longe? – (torcendo para que fosse!) Quantos dias?  E como voltamos?”

- “Sim. Eu tinha mesmo que ir até essa cidade com você, não sabia como fazer, e agora ligaram dizendo precisar de dois motoristas para levar esses carros. Que coincidência né!”

- “Como assim, eu tinha mesmo que ir com você!?”

- É que uma amiga minha, uma enfermeira, que trabalha no hospital daquela cidade, me informou que eles tem três ambulâncias “velhas” que vão ser recicladas – destruídas. Como ela sabe que eu estive um tempos na Albânia, em ação humanitária, nos tempos da sangrenta guerra interna, e já havia lhe falado sobre a atual situação de miséria nos hospitais daquele país, ainda em recuperação, perguntou se eu estava interessado em aproveitar a oportunidade. Claro que estou! Mas tenho que dar um jeito de arranjar dinheiro, pois cada ambulância entregue para reciclagem, o governo paga U$ 2.000. Assim, para “comprá-las” tenho que levar U$ 6.000 e ainda arranjar motorista para trazê-las para minha cidade. Em dinheiro só tenho metade até agora, mas já que temos como ir até lá de graça, topa ir dar uma olhada na situação mecânica dos veículos? Pago as despesas de comida e dormimos na casa de minha amiga. Se dermos sorte ainda podemos voltar com duas ambulâncias.” de imediato.  Depois, vou precisar de uns 30 dias para poder legalizar os veículos, novos documentos e trocar as placas. Se tudo der certo, aí então precisarei de você novamente, para levar uma das ambulâncias, dirigindo, daqui até a Albânia, cruzando toda a Europa, por 3.000 Km aproximadamente. Eu também pagarei tudo, comida e hotel! Topa!!??”

Sem pestanejar, aceitei o “trabalho”.

Dois dias depois estávamos a caminho de Forda, com os Skodas, atravessando tuneis, fiordes embarcados em ferryes, cruzando as mais lindas estradas do mundo. Passamos também por Bergen, uma das maiores e mais famosas cidades da Noruega, até chegar ao nosso destino, uma pequena cidade cercada por montanhas e com um belo fiorde que a corta ao meio. Logo ao chegar fomos à casa onde iríamos dormir, deixar nossas “coisas” antes de ir entregar os carros na locadora. A casa era magnífica, com uma visão privilegiada de toda a cidade.

Depois de entregar os carros, fomos ao hospital ver as ambulâncias. Para nossa total surpresa, após alguns meses paradas, as três estavam funcionando normalmente. E ainda com o interior recheado de modernos equipamentos médicos. As partes elétricas e de motor, tudo em perfeito estado . O Ove logo se encantou e falou  de seu projeto de doar as viaturas para as comunidades pobres da Albânia. Todo sorridente, disse que seria um sonho se pudesse levar as três, mas só tinha dinheiro para comprar duas.

Para podermos leva-las teríamos que decidir quais das três, e voltar no dia seguinte, após uns trâmites burocráticos.

No dia seguinte, recebemos ainda em casa, a notícia de que se o Ove pagasse desde logo por duas, poderia levar as três sem pagar mais nada. Seria uma forma de participação do  hospital  na atitude da doação. É a cadeia do “bem”, boas ações geram boas ações. Só precisaríamos mais um motorista para levá-la da Noruega até a Albânia.

Papéis provisórios concedidos pela polícia local, saímos ao entardecer de volta a Randaberg. Olhamos a calibragem dos pneus, enchemos os tanques e saímos felizes da vida para encarar mais de 700 Km de volta para casa, a noite e com bastante chuva. Parecíamos duas crianças com novos brinquedinhos. E ainda pensar que, logo logo, estaríamos cruzando toda a Europa,”apenas” para fazer um ato de caridade.

Na espera

Como os “papéis” iriam demorar uns 30 dias, eu tinha tempo suficiente  para poder perambular por toda a Europa e visitar amigos junto com a Rosiane, que estava chegando do Brasil. O Ove ficou de mandar um e-mail quando tudo estivesse pronto, nos  liberando para novas “aventuras” antes do trabalho sério.

E assim a Rosiane e eu ficamos passeando, de navio, trem, ônibus e avião, aguardando a hora. Por vários dias ficamos sonhando e fazendo planos para nossa “viagem”. Seria muito bom, tanto quanto diferente passar uma lua-de-mel numa ambulância. Seria meio “corrido”, mas, ficávamos divagando: – “Quantas pessoas podem cruzar toda a Europa, de carro, sem ter que pagar nada!!??” E após vários dias maravilhosos, entre Sevilha, Casa Blanca, Marrakech, Barcelona, Madrid, Milão, Roma, Veneza, Lisboa, Paris, Londres, recebemos o esperado e-mail do Ove.

- “Carros prontos, documentos em ordem. Sairemos dia 04/11 as 21 horas em um ferry para a Dinamarca. Venham!!”

Estávamos em Londres, na casa de nossos amigos Joe e Marisa. Assim que pudemos, compramos as passagens e lá fomos nós.

Em menos de um ano eu já estava viajando para a Noruega pela segunda vez. Para quem nem imaginava ir uma vez sequer, estava bom demais! E agora com a Rosiane junto, para que ele visse com os próprios olhos, todas as belezas, das quais eu vinha lhe falando há mais de um mês. Chegamos uns dez dias antes da data marcada e pudemos passear bastante por Stavanger e arredores. Fiquei surpreso com a rápida mudança do clima. Um mês e pouco antes ainda era calor e o sol brilhava todos os dias. Agora a temperatura era muito mais baixa e um céu escuro sempre trazia uma chuva fina e fria, e um vento gelado. Também escurecia já lá pelas quatro da tarde e amanhecia só após as nove horas. Mesmo assim, bem agasalhados, saíamos andar a pé, sem se importar com as intempéries. E tudo era bom. Inclusive nos dias de preguiça, onde ficávamos na cama até tarde, esticando o sono, embalados pelo uivar do vento.

E logo chegou o dia. Um dia antes a Ro e a esposa do Ove, a Haldis Marie, tinham saído comprar uma porção de comidas, frutas, sucos e água. Compraram muita coisa mesmo. E colocaram  tudo em caixas, numa das ambulâncias, apelidada de “mercadinho”, porque era onde iríamos, todos os dias da viagem, buscar as coisas para matar a fome. A ideia era não gastar nada em lanches, na hora do  abastecimento dos carros, nem em almoço e janta. Bastava abrir a porta, escolher o que quisesse e levar um estoque para o carro, propiciando farta comilança o dia inteiro.

Na hora combinada da partida, chegou o Eric, um grande amigo do Ove, que seria o motorista da terceira ambulância. Apresentações feitas, sentamos um pouco a conversar. Como se tratava de uma viagem demorada e cansativa, o Eric logo foi puxando conversa, me perguntando se alguma vez na vida eu já tinha feita alguma viagem assim tão longa. O Ove, rindo, logo foi lhe informando sobre meus hábitos e excentricidades como motorista e viajante.

E assim animados, partimos em direção a um porto próximo a Stavanger. Uns 60 Km e chegamos para embarcar num enorme Ferry que nos levaria, em dez horas até a Dinamarca. Era uma embarcação muito confortável. Tinha restaurantes, free shop e salão de dança e shows. Nós dois ficamos acordados até a madrugada, para aproveitar tudo o que tínhamos direito. Numa sala de concertos, um pianista inglês, encantado com a beleza bem brasileira da Ro, tratou de se exibir e nos fez rir, cantando com seu sotaque engraçado ….”Olha que coisa mais linda. mais cheia de graça…”"  e depois fechou a noite com “…Ai, delícia, assim você me mata…”

No dia seguinte, já as sete da manhã, iniciamos realmente a dirigir em direção a Albânia. No primeiro dia dirigimos 1.008 Km. No segundo dia foram mais 1.068. E no terceiro outros 565 Km, totalizando 2.641 Km. Cruzamos a Dinamarca – 330 Km. Alemanha – 1.230. Áustria – 200 Km. Eslovênia – 192 Km. Montenegro – 28Km e a Croácia 661 Km. De todos esses países, achamos mais bonita a Croácia, com uma costa maravilhosa, que pudemos apreciar por muito tempo, ao longo da estrada.

Bons exemplos e…. política!

Finalmente na Albânia, onde chegamos já ao anoitecer, e tivemos um pequeno contratempo na Aduana, por causa de mudanças na lei que regula as doações. Tudo resolvido fomos para um hotel próximo a cidade de Lezhe.

No dia seguinte, logo cedo fomos avisados para colocar nossas “melhores roupas” pois, antes de entregar as ambulâncias no hospital, seríamos recebidos pelo Prefeito da cidade, que resolveu prestar uma homenagem a todos nós,  em especial ao Ove Johan. Quanto às roupas, só nos restou rir e dar de ombros. Afinal nossa melhor roupa era a de sempre. Melhor que aquela que estava no corpo há dias, só havia mais uma bermuda e camiseta.

Políticos são políticos! Iguais em qualquer canto do mundo. Fecharam a rua e pediram para que chegássemos tocando as sirenes, quando estivéssemos entrando na Prefeitura. E lá estavam uma bandinha, fotógrafos e radialistas para nos entrevistar e filmar. Imaginamos que a grande noticia dos jornais no dia seguinte seria: “Prefeito homenageia Noruegueses e um casal de brasileiros que trouxeram ambulâncias da Noruega para a Albânia”.

Já no hospital da cidade, que ficava ao lado da prefeitura, a festa foi real e merecida. E o Ove Johan pode ver seu esforço coroado de êxito. Não pediu alarde nem congratulações, mas bastou ver a situação do velho  veículo onde faziam as remoções, até aquele dia, para saber o quanto sua atitude iria ajudar todos os pacientes e outros que viessem a necessitar. E todos os funcionários e médicos do hospital vieram cumprimentá-lo pela entrega de duas ambulâncias “modernas e em perfeito estado”.

Ainda sem alarde, no dia seguinte, no patio do hotel, o responsável por um hospital de outra cidade próxima veio receber as chaves da terceira ambulância. Mais placas comemorativas e mais agradecimentos merecidos.

Parabéns Ove Johan!!!

Living “For Change”!!!

E ai comecei a pensar que tem muitas coisas que podemos fazer ….”for change”….!! Ou melhor, tudo o que fazemos,  qualquer atitude, até conversas, causam mudanças. Para o mal e para o bem.

O encerramento de minha viagem de volta ao mundo – conclusão do  projeto “Meu Mundo Meu Sonho” estava próximo, e tudo o que fiz até aqui foi coroado de êxito. A decisão de viajar agregando valor a minha aventura, não permitindo que fosse apenas um prazer pessoal, me trazia uma grande satisfação interior. Ter escolhido exercer a atitude de doar escovas de dentes nas comunidades carentes, mesmo tendo que comprá-las, visto que a empresa que se dispôs a fornecê-las, queria dar apenas as de baixa qualidade, após saber que seriam destinadas a pessoas pobres.

Sem se importar com os obstáculos, quando estamos decididos a agir positivamente podemos gerar novas atitudes positivas.  Se não levarmos em conta o fator político, a divulgação da atitude do Ove Johan estava alcançando muito mais gente e distância do que ele tinha imaginado.

Quando estávamos a caminho da Albânia, cruzamos vários pontos de pedágio. Em um deles, apesar de termos dinheiro para pagar, dado pelo Ove, que seguia na frente, a moça na cabine nos disse que  - ” …o homem do primeiro carro já pagou tudo!”, como estávamos com o dinheiro na mão, resolvemos pagar para o carro que estava  atrás de nós, mesmo sem saber quem era, repetindo a cena de uma história que eu havia ouvido há algum tempo. Talvez o motorista do outro carro resolvesse dar sequência à “brincadeira”.

São apenas alguns exemplos, nada muito importantes, nem em grande escala, mas que podem se multiplicar e trazer esperança, num mundo onde apenas as más notícias ganham grandes manchetes. E viajando, dirigindo, a pé, de ônibus ou avião,  pude perceber que existem muito mais exemplos de pessoas fazendo o bem.

Living For Change!!