Diário

12/05/2012 - 03:26 | Postado por:
3- Carretera Interoceânica – 12/05/2012

Passadas todas as emoções da despedida e vencidos  os primeiros dias de viagem já me sinto no ritmo do “viajante”

De Guaíra em dois dias cheguei a Ji-Paraná onde queria muito rever um amigo de infância, o Luiz Fernando Serighelli. Se passaram mais de 40 anos das nossas estripulias do tempo de seminário na Colônia Orleans. Cheguei á tardinha. Engraçado, quando pessoas se encontram após muito tempo passado, com mais idade, a conversa não é a própria da idade, mas conversamos como meninos dos idos tempos. Após  jantarmos acompanhado de sua linda família , já eram 1:30 da madruga e ainda estávamos lá dando risadas.  O cansaço falou alto e o sono bateu.

Dia seguinte o programa foi uma entrevista na TV local, Rede Vida. Cidade do interior, as novidades não são muitas, assim, a entrevista demorou umas duas horas entre conversas, fotos do carro, filmagem em vários locais da cidade. Bom prá todos. Divulgação do projeto e dos parceiros que me apoiaram, sonhando juntos.

Acabada a entrevista, na estrada de novo na tentativa de chegar logo a Assis Brasil, no Acre e entrar no Peru. Calor insuportável, estrada completamente esburacada. Não bem um sonho, mas…. faz  parte. Quem quer dar uma volta ao mundo não pode reclamar de estradas. Nesses momentos sinto pelo Teimoso. Tem que cuidar muito bem dele. Lá pela uma da madrugada, ainda não havia comido nada, parei num lugar, o menos suspeito que achei. Pedi um suco de laranja. Não havia mais nada que pudesse garantir uma digestão rápida, muito menos saudável. Veio o suco. Primeiro gole e …estava uma doçura só.

- Hei moço, eu pedi sem açucar !!

- Bem eu coloquei só um pouquinho pra não ficar muito azedo. Foi só umas três colheres ……..

Estrada de novo, até o sono bater e não aguentar mais. Cansado me arrumei no meio dos pacotes, caixas, sacolas…… Tudo um sonho !!!

Dia seguinte, passei direto por Assis Brasil. Passei pela aduana do Peru, comprei uns  poucos soles” pra poder pagar pedágio.

Ali começava uma estrada que queria muito passar. A Estrada do Pacífico, ou “Interoceânica” como é mais conhecida no Peru. São 2.600 Km que ligam Rio Branco no Acre a Lima, no Peru, funcionando como uma nova oportunidade de comércio e integração. A estrada é um sonho antigo dos peruanos. Dividida em 5 trechos, quatro deles já estavam prontos há alguns anos. No ano passado, finalmente foi entregue o trecho 2, de Puerto Maldonado a Cuzco, uma obra difícil face a transposição de muitos vales e montanhas. Chegar até aqui é dificil, mas a paisagem é belíssima. Prá quem me conhece na estrada deu no que deu. Levei 8 horas pra percorrer 300 kilometros.

No meio do caminho pude apreciar as casas típicas dos agricultores peruanos dessa região. Resolvi fazer a primeira “doação” de escovas de dente. Parei numa casita com teto de palha e piso de chão  batido. Mãe, avó e seu “nieto” Fabian.

-Tienes cepillo dental?

- No senõr!

-Acá está, a Condor te dá!!

O Fabian também ficou feliz com um “autito” que escolhi no meio das caixas de brinquedo.

Anoiteceu e, pra não perder nada do visual, parei pra dormir no carro ao lado de um “restaurante”. Mulher, marido e uma ninã que logo veio me mostrar a ninhada de perritos que era sua diversão. Com preguiça de tudo, pedi a “su mamá” se havia café. Peguei um pacote de bolachas e sentei na entrada da casa. Passava um filme antigo. O pai sentado numa mesa ao lado da filhinha, entre uma olhada na tela ia ensinando a filha a fazer a liçao da “escuela”. Os dois riam de tudo. Ofereci umas bolachas.

Hoje pela manhã, acordei bem cedinho pra tentar ver o sol nascendo nas montanhas. Dizem que só existem duas horas tirar fotos: antes do sol nascer e logo depois de se por. A novidade foi uma enorme dor de cabeça. Dormi a mais de 3.000 metros de altitude e, mal alimentado e cansado, fui vítima do “soroche”. No seu ponto mais alto a carretera chega a 4.726 MSN. Durante o dia todo, cada saida, abaixar e levantar pra tirar foto, era uma tonteada, além do coração quase sair pela boca.

Tinha o dia todo pra  fazer os 170 km até Cusco. E, não é que levei isso tudo mesmo. Fiquei 12 horas na estrada no anda para pra admirar a  paisagem, curtir a estrada, conversar com obreiros que ainda estão lá fazendo uns retoques, dar uma carona prá um menino que ia pra escola e parar pra tirar fotos com uma menina que estava a beira da estrada. Em troca da foto lhe ofereci uma mochilinha. Passou em volta do pescoço e foi correndo mostrar para seu avô.

Passei direto por Cusco. Já estive aqui e Machu Pichu. Segui direto em direção a Lima.

Gostaria de agradecer todas as mensagens de familiares, apoiadores do projeto e pessoas que não conheço mas que se identificam de alguma forma, vendo aqui um pouco do que gostariam de fazer e viver.

Estou em Abancay. Amanhã sigo.