Histórias

09/03/2012 - 04:09 | Postado por:
Histórias

PERDI O AVIÃO….

 

Fui comprar vitamina C. Pouco acostumado a aeroportos, achei que o horário do vôo era igual ao do embarque. Quando ouvi a “ultima chamada” fui correndo pro embarque, me seguraram  por causa de um canivete suíço, que nem sabia ser proibido. Ao voltar para deixa-lo no guarda-volumes, nova fila e …. Perdi o avião!

Remarquei para a manhã seguinte.  Voltei pra casa. Dia seguinte, manhã “gelada e linda”, eu “gripado e feliz”, madruguei para ir ao aeroporto. Fui o primeiro a ir pro portão do embarque.

No avião o ouvido começou a tampar.E olhando da janela do avião não vi nada de mais em Brasília além de um lugar plano e seco, sem fim. A partir dali se espalha um Brasil de contrastes. Às 14 horas, saída para São Luiz. Voo tranquilo com lindas paisagens. Via a formação dos “CBs” ao longe e lembrava da histórica tragédia do avião da Air France. Nos locais altos, tudo limpo, visão perfeita. Nos baixios, nebulosidade. Um rio de nuvens contornando as elevações. O ar frio desce, o quente sobe. Científico e poético.

Á tardinha em São Luiz.

Como é perturbador descer de um avião vindo de um lugar que nos é familiar e, num espaço tão curto de tempo, se ver sozinho num lugar totalmente estranho. Como um renascer! Tudo novo. Sem referências. Aqui não é meu lugar, não tenho um abrigo, não conheço ninguém. Ir prá onde? Se pudesse voltaria de imediato.

Mas isso é uma viagem! Tudo é uma viagem.

- Onde é o centro? Dá pra ir de ônibus?

- Dá!! Mas só vá para o ponto do ônibus quando o ver chegando. Não dá para ficar lá esperando. É perigoso!

- Ahh… sei !!

Engraçado, o lugar onde moro também é mais ou menos assim. E aqui não estou vendo nada de muito diferente para justificar tamanha precaução. Mas … vi um taxi próximo ao ponto. Por via das dúvidas … bem  melhor!

- Quer ir pra onde?

- Um hotel. Bem no centro. Quanto você faz?

- Vinte!

Rumo ao centro, pelas ruas e calçadas, jegues, muitos jegues. Roda, roda, jegue, jegue. Animal né!! Sujeira, casas em ruínas, pessoas deitadas em redes, e …jegues descansando, pessoas descansando.

Vida!! A vida daqui.

Meu lugar é bonito. Aqui é feio. Inevitável! O quê que to fazendo aqui?

- Moço, você vai gostar. Aqui é muito lindo!! Lindo mesmo!! Você vai se encantá com a beleza do centro histórico….

- ….é o lugar dele!!

O taxi entra por umas ruelas de filme ….de sonho, nada bom.. ruim mesmo. Fedidas, água escorrendo, cachorros magérrimos, pedintes magérrimos. Quanta pobreza.

E, ficam rindo. Falando á toa. Não falam, gritam. Gritam e riem. Pobres, felizes!!

- Aqui é a pousada!! Pode vê, o preço é baratinho!

Nem quero saber se é “baratinho”. Quero é entrar num lugar, fechar a porta, fechar os olhos e por os pensamentos em ordem. Me achar. Sair do “meu mundo”.

É isso, preciso “trocar de mundo”. Viajar é isso. Pra isso saí!!

Deu fome. Preciso ir a algum lugar pra comer. Saí. Na rua várias barraquinhas vendendo espetinhos. Passei por uma que imaginei chamar-se “Ex-gato”. Decidi ir a um lugar que me fosse mais familiar. Um Shopping!

- Onde tem shopping? .. cadê os taxis?

- “Tem não. Aqui só moto-taxi!

Isso é novo!

-Põe isso!

Peguei. Capacete preto. Sem viseira, sem fecho, lixaaado Meio  “molhadinho” por dentro. Tamanho “universal nordestino”.

É pegar, não pensar. Só pôr e tá tudo certo.

Entrei no shopping. O ouvido trancou de novo. A pressurização do avião potencializou os estragos do resfriado. Agora com o ar condicionado, danou-se…. Quase não ouvia mais nada. Falar era como usa um alto-falante para mim mesmo. Falava pra dentro e não tinha a menor convicção que alguém iria me ouvir. Além da dor!!

Comi rápido. Comidinha chinesa. É bom, não tem erro. Estava decidido a procurar um médico imediatamente.

- Só no “P S” moço!!

- Onde?

-Logo ali. Mas não dá pra ir a pé que vai ser assaltado!

Moto de novo.

No P S, mesmo as 23:00, fila!! Que legal. Sou povão!! É assim que funciona para a maioria dos brasileiros.

Pra mim é só mais uma experiência. Prá eles, rotina!

Na sala da recepção, tudo amontoado, duas recepcionistas pra encaminhar á próxima mesa onde o “médico” – nunca se sabe – já foi “intimando”..

- Que qui tem??

- Tô cos ouvido trancado. Vim de avião gripado e to com muita dor!

- Ahh…já sei. Deita ali!!

Apontou uma maca em frente, entre um drogado que se debatia com mãos e pés amarrados e um outro com uma facada no peito, como soube depois.

A maca, toda molhada. Hesitei…

- Deita moço!!!

Olhei. Todo aquele povo. Senhoras,crianças e velhos. Tudo ali ao redor, bem juntinhos. Achei que não era lugar de rodeios nem questionamento de direitos… Deitei!

- Baxa a calça!!

Tratado como mais um “normal pobre coitado”, obedeci!

Injeção!!!  … de realidade!!! Tenho muito pra ver e aprender!

Doída demais essa injeção! Ambas!!

Fora o motoqueiro estava me esperando. Vamos embora pra pousada. Ao sentar no banco….dor!! …um lado mole outro duro!

Hora de dormir. Chega de Aula por hoje!!

Dia seguinte, 6 horas, acordar e ir pros “Lençóis Maranhenses”.

Menos expectativas. Mais “pé no chão”. Tudo é perfeito, sempre!!!!

Dormi em Barreirinhas. Cedinho a Toyota nos levou. Nos bancos de madeira da carroçaria, a água dos trechos alagados, só não chegava na bunda.

Lençóis. Areia branquinha e uma porção de lagoas, verdinhas e quentes. Diferente, surreal. Olhar em silêncio. Absorver. Abrir um canto especial nos lugares recordáveis, das paisagens incríveis. Um lugar reservado onde já tenho algumas. Poucas, mas bem vivas!

No outro dia, uma esticada a Atins, no encontro do rio com o mar, outro espetáculo que também tem endereço no cantinho especial. Isso é raro!

Volto a Barreirinhas. Preciso ir a Camocim, pelo interior, sem ter que voltar a São Luiz.

- Primeiro tem que pegar a Toyota pra Paulino Neves, depois outra prá Senador Correia e daí pega ônibus pra Camocim…

No lugar onde ela iria passar, uma moça já tá esperando.

- Você vai para Paulino Neves?

- Vou, mas a Toyota de hoje não vai vir. Só se a gente der sorte de vir outra fretada por alguém.

E veio!

 

- Vai para Paulino Neves?

- Não. Mas posso passar por lá. Paga “sessentão” cada um que levo!

Ajudei ela a colocar uns sacos de roupa sobre um estepe sobre o assoalho, prá não molhar na passagem pelos alagados. Ela tinha ido a São Luiz comprar roupas, “mais baratas”, prá revender pras amigas da cidade.

- Sonho em abrir uma lojinha e então ir comprar em São Paulo..

Sonhos… Esses eram os dela. Os meus era …. “Estar ali”.]

Quatro horas seguidas sacudindo a bunda num banco de madeira. Lagoas, dunas, trechos alagados no areião, cabeça batendo na armação da capota, tentando salvar as sacolas que teimavam em cair na água que vez por outra inundava a carroçaria.

Longe eu estava. Muito longe de tudo. De tudo! Nunca de Todos! Como gostaria que aqueles que amo experimentassem o prazer  do novo, do desconhecido. ….Ler outras páginas do mundo …. Criar novas páginas. Viver!!