Diário

27/07/2012 - 03:09 | Postado por:
18- Inside Passage – 27/07/2012

De volta á estrada, dirigindo mais relaxado e fazendo melhores médias com o combustível – em torno de 10km/l – deixei pra decidir no caminho  se iria até Skagway, ou seguiria pelo mesmo caminho da vinda. Nem uma coisa nem outra!

Pra quem não conhece, ou tem preguiça de olhar o mapa, explico. Pra chegar ou sair do Alaska, de carro, tem que passar pelo Canadá obrigatoriamente. Como são regiões com pouca densidade populacional e o terreno é cheio de montanhas e lagos, além dos problemas com o permafrost, que encarecem a manutenção de estradas,  por estes lados existem bem poucas  rodovias. Ou se escolhe a longa, muito longa estrada, ou ….. o mar, o Oceano Pacífico!

Mas ali, o Pacífico não é bem um mar! O caminho aqui é pela “Inside Passage”! Passagem Interior! Como o nome diz, se trata de um  labirinto de canais, em cujas margens se formaram muitas vilas e até cidades, ainda que bem distantes umas das outras.  E é muito explorada turisticamente pelos americanos e canadenses. O percurso total liga o Alaska, Canadá e a costa americana abaixo do Canadá. Pra facilitar, cito o nome das cidades mais conhecidas. No Alaska é Valdez, próximo a Anchorage, e nos EUA é Seattle.  A empresa que opera o percurso é a Alaska Marine Highway. O trecho total tem mais de 1.000 ilhas, inúmeras baías e milhares de kilometros, servidos por uma frota de 10 navios.

O nome, “Inside Passage”,  já instiga o imaginário a pensar em algo entre o místico e o aventureiro!! Realmente é um trajeto  com paisagens muito bonitas. A largura dos canais é variável. Tem alguns muito estreitos, entre montanhas nevadas, com casinhas coloridas nas margens, uma grande quantidade de coloridos barcos pesqueiros, cujos pequenos nomes, parecem resumir grandes histórias… “Ice Boat”, “Nightmare”, ou pequenas…”Sweden Girls”!…

Em 2010 fiz um trecho parecido, nos canais chilenos entre Puerto Montt e Coyhaique, na Carretera Austral. Na verdade, já tinha lido e olhado muitas fotos da Inside Pasage. Como moro  muito longe, era apenas um sonho!  E já que não poderia realizá-lo, ao menos poderia fazer algo parecido. Não foi lá essas coisas. Assim o sonho permaneceu!!

Agora, tenho mais um sonho realizado!! O trajeto que escolhi foi entre Haines e Prince Rupert. São 2 dias navegando, com algumas paradas. O custo do carro, mais uma pessoa foi de U$ 576. O preço varia conforme o comprimento do carro. O barco dispõe de cabines com custo á parte. Mas  a maioria dos viajantes prefere dormir em outros locais disponíveis. Deck de observação, salas de leitura, restaurante e salas de repouso, onde se encontram as poltronas reclináveis. Nem essas são tão usadas. O local preferido é o chão mesmo. Acarpetado e aquecido pelo ar condicionado. Uns trazem os colchonetes e sacos de dormir, outros nem isso. Simplesmente deitam no chão e …. lembram que estão num lugar especial, tipo…”al menos una ves en la vida”!  E não é pela falta de dinheiro, a julgar pelo tamanho das máquinas fotográficas, modelos de carros, traillers e motor-homes.

O lado aventureiro ficou por conta da neblina! Por duas vezes durante o percurso, fechou tudo a frente do navio. Nada se via além da branca nuvem, nada se ouvia além do vento. O silêncio só era quebrado pelo forte som da buzina marítima, que tocava em intervalos,  seguida de um duplo badalar de um sino, para avisar de nossa presença preferencial. Era sensível  a tensão do momento. Na proa ficava postado um tripulante, com os olhos fixos, a procurar obstáculos ou outros barcos no caminho. Nessas horas, só  a tecnologia parece não ser suficiente.

Junneau

Sendo o Alaska, por si só um destino de aventura, nada como ter uma capital sem nenhum acesso por terra. Assim é Junneau. Numa das paradas do barco pude ficar ali  por algumas horas. Tempo suficiente para curtir o ambiente turístico proporcionado pelos milhares de visitantes trazidos pelos enormes transatlânticos que aqui tem parada obrigatória. Nas ruas centrais, centenas de lojas e um grande shopping para aplacar o furor comprista dos visitantes. Visitei também o enorme teleférico que nos deixa no alto de uma montanha, permitindo a descida, a pé por 4 km de trilha morro abaixo …entre pedras, ursos e águias…Awesome!!! Traduzindo…”mui amigo” quem sugeriu o passeio!!!

Cachorros

Ao embarcar no navio fiquei surpreso com o grande número de cachorros que seguem com seus donos a bordo. Parece que todos aqui tem o hábito de ter um cachorro, de qualquer tamanho. Talvez seja  uma solução para a solidão, necessidade de dar e receber carinho e outras questões sentimentais dos … humanos. Em muitos carros se vê o(a) motorista sentado num banco, no outro, um cachorro. Até são vistos conversando entre si! O detalhe é que, no navio, os animais não podem ficar nas áreas dos passageiros. Ficam todos presos dentro dos carros, no porão. Só podem sair quando das paradas. É um corre-corre  para levá-los a fazer as necessidades. Dá o que pensar dessa … humanidade!!!

Imaginação…

Num dos comments me disseram que,  sozinhos, nossa imaginação é potencializada. E como!!

Ao sair do ferry em Prince Rupert, ás 3:30 da madrugada, precisava dormir mais um pouco antes de retornar á estrada em direção ao sul, voltando aos EUA, Seattle. Bastava achar um cantinho. Mas não é bem assim. Lembrei do episódio no Denali Park, onde, sem saber, acabei dormindo num local que pertencia a uma pessoa que cobrava pela estadia. Ainda não me sinto bem ao relembrar a situação. Isso me faz escolher muito bem onde parar pra dormir. Após procurar bastante, já na saída da cidade, acabei achando um Mac Donalds aberto. O funcionário disse que poderia  ficar ali, fazendo um lanche ao amanhecer. Dormi tranquilo. Como quando se viaja sozinho, os sentidos, ficam todos super aguçados, qualquer sussurro é suficiente para me deixar alerta. Acordei assustado com um falatório alto, bem do lado do carro. Em inglês é claro. Como quando estou dormindo, durmo em português…. – me superei agora né!! – aquela falação era meio ininteligível. Me pareceu algo como…

- “O carro está ilegal aqui!!! Acho que tem um brasileiro aí dentro!” Veja o que tem que ser feito!!”"

Poderiam estar chamando a polícia, entre outras coisas!! Me vesti em menos de um segundo. Olhei pela janela, e vi mesmo, sem imaginar nada, um guincho entrando!

Pulei para o volante e já ia ligando o carro, quando observei que o pessoal que estava conversando, ao me ver ali, vieram rápido em minha direção …. e foram logo dizendo:

Awesomeeeeee!!! ….Great trip!! …… Great man!!!…..

E…. O GUINCHO ….coincidentemente!! … só veio se abastecer de um sanduichesinho no”drive thru”….

A outra “Rodovia mais cênica do mundo”!

Optar pelo ferry a partir de Haines foi uma decisão tomada no meio do  caminho. Sabia que, além de Skagway, tinha uma outra opção, a qual tinha lido num folheto. Mas não tinha nada além disso. Indo em direção áquela cidade, cheguei num povoado chamado Haines Junction. Resolvi abastecer o estômago e satisfazer a curiosidade. Perguntei em dois lugares se era possível ir com o ferry também por Haines e qual seria a opão mais interessante para quem quer ver e conhecer mais lugares e que tenha paisagens mais bonitas. No primeiro disseram:

- … o lugar mais bonito é aqui mesmo!!!

Gostei da estima elevada. mas…do que eu precisava nada ouvi dizer. No outro lugar, uma mulher me mostrou um mapa e disse tudo o que eu queria ouvir e mais um pouco. E ainda me presenteou com o mapa. Não sei porque, mas realmente eu queria ir por um caminho diferente. E o que ela falou me deixou muito satisfeito:

- The highway, is very beutiful!!!

Sei que a Icefields Parkway, alem de já consagrada, é linda, tem os enormes lagos cor esmeralda, e é super preparada para receber turistas. Mas penso que não se deve compará-la com essa, entre Haines e Haines Junction – Alaska Highway 7.

Aqui tem muito mais montanhas e geleiras do ladinho do asfalto, que parece um tapete, e  não tem a grande quantidade de carros e turistas entrando e saindo dos pontos de observação. Aliás, quase não tem ninguém, além de uma enorme quantidade de vida animal ao longo dos aproximadamente 230 km de estrada. Foi aqui onde vi o maior número de ursos marrons e pretos de todos os tamanhos. Em especial, o trecho na parte americana, é simplesmente espetacular. A estrada corre uns 30 km ao longo de um enorme rio, alimentado por águas de degelo dos glaciares que a rodeiam.

Acho que não é tão conhecida nem divulgada, porque não faz parte do trajeto principal de quem segue em direção ao Alaska. Só é usada pelos privilegiados que vão pela Inside Passage ou pelos, mais privilegiados ainda, que moram por ali.

Tem um mundo diferente bem ao nosso lado…

Enquanto esperava pra colocar o carro no barco para a Inside Passage, fiquei observando o mar junto a umas pedras. Descobri que no meio das pedras haviam umas pequenas lagoas. E vi que dentro de algumas, tinham até alguns peixes. Gostei de uma e fiquei olhando os peixes. Vi que tinham umas tocas embaixo de uns arbustos pedregosos. Suas “casinhas”! Tirei umas fotos. Só para servir de recordação. Quando dei por mim, percebi que a maré estava subindo rápido e quase acabei ficando ilhado. Fui um pouco mais para cima  e continuei apreciando, enquanto a maré subia e …enchia a minha lagoa preferida. Ao final de um pouco de  tempo, só dava pra ver a ponta de algumas pedras. Fiquei a pensar. E aqueles peixes que estavam ali…. Agora tinham chances de sair e ter o mar como lar, em vez da lagoinha… Ganhariam um verdadeiro novo universo cheio de novos horizontes, muito além das mesmas pedras de sempre! …. Seu mundo seria milhares de vezes o tamanho de seu atual mundinho….

Bem, talvez sejam peixes que não gostem de viajar! E prefiram mesmo é ficar ali, na aparente segurança de suas tocas…

As fotos estão aí. Podem comparar pelas montanhas na parte de cima. É o mesmo lugar!!!

Lembrei da frase: “Urbi et Orbi”.

Uma vila tem o exato tamanho do universo, para quem apenas nela viveu !!!

                      

Para não me esquecer…

Os americanos, e canadenses também, gostam muito de fazer piadinhas sobre tudo e nada. A maioria, mas a grande maioria mesmo, sem graça nenhuma. E falam rindo e dando entonação pra tentar deixar a coisa mais interessante, como se fosse muito importante, o que estão contando, ou…inventando.

E quem ouve, dá uma risadinha e, devolve, emendando com outra piadinha, usando o mesmo sal da primeira, ou seja, quase nenhum…

Assim, me sinto no direito de me exercitar na criatividade de algo que REALMENTE  faça rir !!!!

É o seguinte!  Primeiro é que na Alaska-7, achei o cara que vai derrotar o Anderson Silva. Treinando intensivamente!!! Olha ele aí!!!

Achei o cara que vai derrotar o Anderson Silva !!!!!!!!

Segundo: – ao ver tanto os alaskianos como os canadenses se orgulhando de terem ursos grandes e maravilhosos, lembrei que aí no Brasil também temos muitos ursos grandes. Gigantes se comparados com os daqui. E melhor ainda. Quase todos estão na minha cidade, Curitiba. Sim temos os maiores ursos do mundo!!!! Maiores que os Black Bear, os Grizzly Bear, temos os….

Bear Ticulados!!!!!

- Joe, please, forca não!!!

P.S.  - Tirar tantas fotos dá muito trabalho. Mas saber que vou poder compartilhar o que estou vendo, compensa!!

É muito bom ter alguém que nos inspira e dá forças!!!