Diário

13/06/2013 - 09:47 | Postado por:
28- Meu pai cuida de mim! 13-06-2013

 

Gold Coast, Austrália. Lugar de Viver!

Na Austrália, na locadora, após entregarmos o luxuoso e confortável, e  …caro Motor Home,  a atendente perguntou como iríamos pro centro. Se de táxi ou alguém viria nos buscar……

- “Não, vamos a pé mesmo!” E lá fomos nós carregando nossas mochilas…, andando entre as pessoas e por um  fluxo enorme de veículos. Momentos antes, quem nos visse no motor home, pensaria sermos parte da minoria rica e privilegiada. Agora, já fazíamos parte do mundo dos pobres andarilhos! Tudo o que pensam de nós será sempre assim. Para os outros e, as vezes para nós mesmos, nunca somos o que realmente somos, mas, sempre e apenas, o que aparentamos ser! A tal da teoria do “Ponto do Observador”, que ensina que tudo muda, dependendo do ponto de onde se olha para algo. Aqui aprendi que, além dos vários ângulos que o observador possa ter, ainda o observado também está em constante mudança!

E lá fomos nós, rindo e tagarelando sobre isso. Felizes! Não por podermos ser ricos e pobres quase ao mesmo tempo, mas simplesmente por saber aproveitar cada momento da vida.

Quero feijãooooo …..!

O Diogo e seus amigos moram num apartamento em Nobby Beach, um bairro de Gold Coast. É um lugar privilegiado mesmo. Tem uma grande sacada com vista maravilhosa para o mar e para praias famosas como Surfers Paradise e Coolangata, que sedia uma das etapas do mundial de surf. Da mesa ali colocada, podíamos tomar o café da manhã admirando o sol nascendo, dourando o mar. Todos os dias, não importando o tempo, frio, chuva, sol ou vento, quando olhávamos da sacada, desde muito cedo, sempre tinha surfistas na água. A comida aqui não satisfaz ao paladar brasileiro. Aliás, comer igual se come no Brasil, vai ser impossível em qualquer lugar. E eu adoro feijão. De tanta vontade, fiquei de olho para encontrar feijão. O Diogo até me levou num lugar onde só tem brasileiros. Dos cozinheiros aos clientes. Mas, que decepção. Se são brasileiros mesmo, já esqueceram como se faz feijão, ou o feijão é que é muito diferente. Parecia um pirão sem sal! Realmente não tem como algum estrangeiro comer e gostar de feijão. O que tem aqui parece que vem do México. Velho, enorme e cascudo. E pra piorar é quase impossível encontrar panela de pressão á venda. O Joaquim, que trabalha como cozinheiro e entende muito do assunto, até tentou fazer numa panela normal. Não ficou lá essas coisas. Acabei por procurar tanto que acabei achando uma num grande mercado. Paguei US 45. E fui feliz da vida “pra casa”, – “hoje mato a fome de verdade!”. Comprei um feijão que parecia melhorzinho e uma linguiça pra dar um gostinho de “comidinha da mamãe”. E não é que ficou bom mesmo. Além de nós, estava a Laura, australiana amiga deles e que já havia provado, e recusado feijão no restaurante brasileiro. Comeu e…repetiu! E secamos a panela. Cardápio bem caipira: arroz – grudentinho mesmo- salada de alface e ovo frito.E como eu coloquei muita “fé no taco”, comprei e pude saborear um bom vinho.

Australianos – o povo mais feliz do mundo.

O Diogo estuda e trabalha aqui. Após o trabalho, ou quando estava de folga,nossa rotina era quase  sempre a mesma. Eu pegava uma bicicleta e  ele um skate e íamos para alguma praia olhar tudo, as ondas, o surf, o movimento de pessoas. Ali parece que todo mundo faz sempre a mesma coisa. Assim que podem, saem de casa para curtir a vida. E saem de qualquer jeito. Calção, bermuda, chinelo, descalço, regata, sem camisa. Mesmo para ir a lugares como banco, mercado, shopping, o jeito de vestir é o mesmo, ou seja, descompromissado, nada com nada. E vão a pé, de skate, de patinetes, bicicleta, ônibus, carro. Me impressionei com a forma desprendida como curtem a vida. No ano passado passei pela Costa Rica, onde se usa uma expressão recorrente para definir o país – “pura vida”. Lá achei que é apenas uma forma de atrair turistas. Aqui  o termo parece muito mais apropriado. E os turistas dispensam as propagandas. A realidade fala por si. A Austrália foi escolhida em maio último, como lugar do povo mais feliz do mundo e o melhor para viver e educar as crianças.

Meu troféu!

Todos os dias, antes de dormir conversávamos sobre os “planos” para o dia seguinte. Desdeu que chegara, já havia decidido a fazer, como na Nova Zelândia, algo que fosse bem típico no país. Ali eu iria fazer Stand Up paddle. É um esporte onde se usa uma prancha grande com um remo para nos impulsionar. No dia certo lá fomos nós. Pagamos US 15 por tempo ilimitado. Poderíamos remar o tempo e a distância que quiséssemos. Até o Brasil se pudéssemos e se …. se eu não caísse tanto! Engraçado, é muito fácil mesmo o tal do Stand Up. A instrução do atendente foi muito simples:

- “basta olhar para o horizonte, nunca para a água!” Só isso! E foi a única coisa que fiz direitinho. Olhei sempre … só pra água!! O Diogo ria:

- “Para de tremer as penas meu!!

Nem a água gelada e salgada me fez desistir de cair. Num dos mergulhos acabei por perder o meu boné de estimação. O que ganhei quando fiz o Bungy Jump na Nova Zelândia. Quando cheguei perto do Diogo e ele parou de rir, perguntou:

-”Ei, cadê o boné!”

Passei a mão na cabeça e … não ri! Até ali estava tudo muito bom, mas perder o tal boné estragou tudo. Olhei para o meio do canal e …nada! O Diogo já foi falando:

- “Esquece, esse já era. A corrente levou e você não pega mais.”

Olhei bem por todo o canal e vi algo. Se não fossem os olhinhos de um jacaré, poderia ser .. êle! Como adoro desafios, me enchi de coragem e, ….usando já de toda a “longa” experiência como ótimo remador de Stand Up, me mandei rápido atrás da “coisa” boiando. A correnteza contra não ajudava, mas eu “queria” meu boné de volta. Ainda longe vi que não era jacaré nem nada, era ele mesmo, meu surrado e … encharcado bonézinho.

Hahaha …….como é bom vencer os desafios da vida e …a si mesmo!!! E, de novo, sem cair, voltei orgulhoso para mostrar ao Diogo o meu troféu!!

O melhor restaurante do pedaço!

Dia 2 de junho foi meu aniversário. Estava feliz por poder estar ali e comemorar junto com um de meus filhos. Saímos já à tardinha para dar umas voltas e depois escolher a melhor forma de marcar o “momento”, talvez jantando juntos num bom restaurante. Quando chegou a hora, sugeri que fossemos a um lugar que servisse a melhor comida possível, sem se importar com o preço. Seria justificado. Ele disse:

- “Deixa comigo, se você autoriza, conheço um lugar bem especial, e é meio perto de casa!”

E lá fomos. Pegamos o ônibus e andamos um bocado. Passamos perto da praia e, como já havia notado, em toda a extensão do calçadão da orla, tem uns quiosques com churrasqueiras elétricas, pias com água quente, WC e iluminação, que são muito usados por aqui e não importa o tempo, pode estar frio e chovendo, sempre tem australiano curtindo seus momentos junto com os outros. Mas naquele dia estava uma garoa chata e bem friozinho de verdade. Chamei a atenção do Diogo para “aqueles australianos loucos” ali bem na nossa frente.

Quando chegamos bem pertinho, vi que tinha um cara que achei que era muito parecido com o Vini, um dos amigos que mora junto com o Diogo.

E não é que era ele mesmo! Só aí percebi que os “australianos” eram todos brasileiros!! Ali estavam o Vinicius, o Joaquim, a sua namorada Mariana, a Daniela e o  Maurício, seu namorado. E tinha picanha, maionese, salada e …até vinho!! E tinha bolo também!!

- “Parabéns Seu Mauro!!”

Obrigado galera, vocês me emocionaram!

Valeu aí …Pai!

Quando saíamos, eu matava minha vontade de andar de bicicleta, o Diogo seguia na frente ou atrás, “pedalando” o long – um tipo de skate. E não me dava sossego.

- “Cuidado com os carros …fica mais perto … espera o sinal fechar … fica mais junto, se você cair,  aqui a conta vai ser alta!”

Eu ficava feliz pela atenção que me dava, e ria sozinho. Quantas e quantas vezes eu fiz isso com ele e com os outros irmãos. Me senti seu filho!

Apesar da vida boa e de estar me sentindo realmente “em casa”, já era hora de voltar à estrada. Marquei a passagem para um horário bem cedinho, quase madrugada. Assim poderia sair junto com o Diogo quando ele fosse para o trabalho.

No dia, acordamos cedo, arrumei minha mochila e, ainda escuro saímos. O ônibus que ele pagaria pra o trabalho era de um lado da rua e o meu do outro. Nos despedimos e ficamos um bom tempo vendo um ao outro sentados no ponto. Estranho vê-lo ali, num país estranho, numa cidade estranha, longe de todos que lhe podem dar apoio. Ele seguindo numa direção e eu noutra. Fiquei feliz, afinal esse é o seu tempo, o de encarar sozinho os seus desafios e colher os frutos de todos os seus atos. Mais feliz ainda por perceber que seus troféus já são muito mais que um boné, um automóvel ou dinheiro em banco. É riqueza de caráter!

O vi com muito orgulho! E lembrei que ele é igual ao Tiago, Vinícius, Guilherme e Alexandre. Tenho muito orgulho de vocês!