Diário

19/10/2013 - 12:21 | Postado por:
38- Mongólia 19/10/2013

 

Meu amigo mongol e eu temos a mesma idade.O sol castiga o rosto. E ainda jovens a pele enruga.

Visitar a Mongólia era um dos meus maiores sonhos. Espremida entre a Russia e a China, o jeito mais fácil de conhecê-la é fazendo uma escapada de um desses países. Como eu estava no trem Transiberiano, indo de Vladivostok à Moscou, fiz uma parada de alguns dias na cidade de Ulan Ude, Russia, para poder satisfazer meu antigo desejo.

Sonhos entre amigos!

Em 2006, numa reunião com meus amigos de Curitiba, o Maurício e o Yguaçu, enquanto planejávamos uma volta ao mundo, que se chamaria “Rural, Desafio Mundial” – por pretendermos usar dois veículos da marca Rural Willys, um dos lugares que mais chamou nossa atenção e instigou nossos sonhos de viajantes, foi a capital da Mongólia, Ulan Bator. Parecia um lugar inatingível, de tão distante, situado entre dois países com política de restrições para visitantes, dificultando a logística. Imaginávamos um lugar, quase inabitado, com poucos recursos. Uma pequena vila, longe demais, no meio de uma imensidão de planícies descobertas, castigadas por um frio intenso e ventos constantes. Agora, 11 anos depois, sozinho, estou tendo a oportunidade de resgatar esse sonho por nós três. A região, como imaginávamos, é sinônimo de aventura. Mas a beleza é muito além do que algumas fotos podem mostrar. As paisagens são impossíveis de caber em qualquer gravura. E não há câmera que possa captar a sensação de estar aqui. Não há poluição, e o céu é sempre de um azul muito intenso, e os campos de relva amarelada, brilham sob a luz de um sol inclemente, que chega a queimar. O rosto dos mongóis são sempre vermelho vivo. E a pele enruga ainda jovem.

Cruzando fronteiras

A distância entre Ulan Ude, Russia e Ulan Bator na Mongólia é de aproximadamente 600 Km. Mas para percorrê-los de ônibus, levei 11 horas. O rigor da fiscalização nas duas fronteiras é extremado. Antes da fronteira, um policial vem ao ônibus contar o número de passageiros e ver se todos tem passaporte com visto. Na fronteira, antes de descer, o motorista tem que mostrar a relação de passageiros e esperar permissão para que desçam. Antes de ir para a fila da imigração, todos ficam numa sala, com todas as bagagens no chão, e um cachorro fica uns 15 minutos cheirando tudo. Só então, se obtém a permissão para formar fila, a frente das máquinas de raio X, que escaneiam demoradamente cada volume. Depois, de volta ao ônibus, seguimos até um portão, onde outro policial vem, novamente, ver se todos tem seus passaportes carimbados e conferir o número de passageiros. Esse ritual é repetido nas duas fronteiras. Em cada uma, mais de uma hora e meia de espera! E isso porque os ônibus tem prioridade. Enquanto se atende um ônibus, não se atende nenhum outro veículo.

Sonhos quase em comum.

Chegando em Ulan Bator, uma surpresa enorme, gigante. É que a “vilinha” de nossos sonhos de 2006 no Brasil, era na realidade uma gigantesca metrópole. Muitos edifícios enormes, largas avenidas, engarrafamentos de carros e mais de 1 milhão de habitantes. Resolvi passar uns dias morando em gers, junto á famílias mongóis. Foi uma experiência fascinante. Como eu ia sozinho, tive que contratar um guia só para mim. Mas isso foi ótimo. Era só nós dois, conversando dias inteiros sobre tudo. Ele quase não falava inglês, mas na base da mímica, trejeitos e risadas, conseguimos “bater muito papo”. Eu querendo saber sobre mongóis, cavalos, gers, vida selvagem, e ele querendo saber sobre… praias, computadores, comida de shopping e vida …moderna!!                       Contei que estar ali, para mim era um sonho. E ele me disse que também tinha o sonho de conhecer o Brasil, um país cheio de florestas e com árvores enormes, mas que lhe parecia muito distante. Quase um sonho impossível. Agora, apenas para ele!!

Mais para Mongo do que para Mongol.

Cavalos são a paixão dos mongóis. E andar a cavalo aqui é uma obrigação, senão uma forma de sobrevivência. Sentir o espírito desse povo é estar sobre um cavalo, percorrendo os campos sem fim, e deixar o vento açoitar o rosto, e o frio enrijecer os músculos. Como nunca consegui sentir prazer nenhum andando a cavalo, talvez pela pouca habilidade para relaxar totalmente o corpo, e poder sincronizar os movimentos, quando me convidaram para “sair pelos campos”, sem hora pra voltar, pensei que não seria nem um pouco simpático recusar. E tinha todos os motivos do mundo. Além da total falta de habilidade, os vários meses de “dieta” forçada, pelo paladar anti “noodles” e a falta de feijão e carne na Ásia, tornaram quase inexistente o “estofado” de meu traseiro.                                                                                                                               Convite aceito, lá fomos nós. No começo, os cavalos apenas andando, e eu tentando de todas as formas, “dançar junto”, conforme a música do cavalo. Um balancinho pra cima, um balancinho pra baixo. Afinal, o que eu conseguia mesmo era “um soco pra cima e uma socada em baixo”! Mas, meu apelido é … Teimoso!…. e lá fui eu sofrendo em silêncio. Meu guia, com quem podia falar algum coisa em inglês, não estava junto, para que eu pudesse falar, explicar, implorar, sei lá o que. Ali, era só eu e um dos melhores cavaleiros do mundo, sem podermos falar nenhuma palavra. Só sorrisos! Ele olhou pra mim, sorriu mais uma vez, e começou a trotar. O caminho era longo. O padecimento também! E a minha dança também mudou. Virou música de uma nota só, com uma batida seca, sempre no mesmo tom, ou melhor, no mesmo lugar. Bem no ossinho!             Sempre que podia eu olhava para trás. A distância do Ger só aumentava, cada vez mais longe. Era só para saber o tamanho do estrago futuro. Além do sol queimando o rosto, o chacoalhar incessante já estava me fazendo suar – ou era a tensão – e a poeira, levantada pelas patas dos cavalos, começava a grudar na pele. Que delícia, que aventura, como sou privilegiado! Depois de umas 3 horas e meia, voltamos ao Ger.                                            O meu guia veio me receber, todo sorridente: “E daí, como é estar aqui, e sentir-se como um verdadeiro mongol!?                                                                                                     Cheio de sorrisos, indisfarçavelmente amarelos, respondi:                                                     “Por acaso, você tem um analgésico!?