Diário

21/08/2012 - 18:02 | Postado por:
21- Palavras mágicas!! – 21/08/2012

Las Vegas!

Depois de Yellowstone, já estava satisfeito com minha passagem pelos Estados Unidos. Afinal conhecera a primeira e maior reserva natural do mundo. A partir dali a idéia era simplesmente ir devagar em direção á Florida, visitar meu irmão Marcelo, sua esposa Andréia  e filhos, e também ficar uns dias em sua casa.

Num Email que me mandou, foi dizendo alguns  dos lugares que eu deveria aproveitar: “Las Vegas é “sensacional”, a Rota 66 é muito interessante, Houston tem uma área subterrânea recém inaugurada, e ainda tem um lugar chamado Havasu Falls…”

Quando recebi o Email, já tinha acabado de sair de Las Vegas! E mal tinha acabado de entrar na cidade!

Curioso, sai da estrada só para matar a vontade de conhecer a famosa cidade implantada no meio de um imenso deserto. O sol estava escaldante. Poderia dar uma paradinha e andar um pouco pela cidade. Fui entrando. O GPS me levou direto pela Main Street. Aquela cheia de cassinos, lojas de grife e restaurantes caros,  e que atraem pessoas do mundo todo. É uma cidade ícone de tudo que é supérfluo. Quer torrar dinheiro e saber como isso pode ser rápido e indolor, vá a Las Vegas! Aqui a curiosidade pode nos levar á falência rapidinho.

Até eu que só queria ver, torrei um pouquinho!

Uma torre alta me chamou a atenção. Ali funciona um hotel, cassino, restaurante e uma atração bastante incomum, a Stratosphere.

Parei o carro no estacionamento de um restaurante mexicano ao lado e fui matar a curiosidade.

Nesse mundo de caça ao “seu” dinheiro, basta entrar e as luzes e o som te levam a um labirinto. De  cara você esquece onde é a saída, e  algo vai te fazer parar e…gastar! Quanto a mim, logo achei algo que eu “precisava” experimentar. Uns brinquedos com uns nomes pra lá de atrativos, um misto de aventura, perigo e loucura. Nem pensei muito. Comprei os tickets e lá fui eu para o 109 andar da torre. Ver a cidade toda e poder fotografá-la, e … brincar  de me jogar de lá de cima. Esse era o brinquedo!

Olhando de cima dá pra ver que las Vegas não é só lojas e cassinos. É uma cidade muito grande mesmo, e que se estende ao longe pelo deserto. Além dos grandes prédios, tem as casas de muitos moradores. Acho que devem ser todos ligados aos “serviços” prestados pela cidade e que movimenta milhares de dólares.

Sobre o meu brinquedinho nem vou falar muito. Basta dizer que fiquei pendurado numa cadeira  que simulava que ia me fazer despencar lá de cima. Não gostei muito não!! Lembro que deu tempo de me perguntar. O que estou fazendo aqui? Se eu realmente cair, é pra que eu aprenda … a resistir aos impulsos…!!! …Aprendizado inútil!! A única coisa boa é que a “mocinha” que monitorava o local. me achou parecido com um astro do cinema. Fiquei na dúvida se foi só pela beleza ou pelo estilo sexy! Dá pra conferir na foto!

Dei um jeito de sair do prédio rapidinho. Lá embaixo ainda  fiquei vendo os que se atiram lá de cima num cabo de aço. E ainda tem que pagar U$ 140 pra isso!!  …Eu estava morrendo de inveja!!

Melhor ir almoçar alguma comida decente pra meu estômago. Algo que não termine com …chicken!

O calor era a outra atração! O vento quente queimava o rosto na sombra. Entrei no carro para me refrescar no ar condicionado. Fui até o final da Main Street e voltei. Foi o suficiente para me cansar de ver tanta gente bebendo, comendo, gastando, luzes piscando,e o transito quase parado. Percebi que estava fazendo parte de um desfile. Tudo ali é uma atração. Até o Teimoso!

Quase uma hora de anda e para, resolvi me sacudir. Voltar ao meu mundo. Vida real, sem muitos artificialismos, e onde os gastos são para coisas essenciais. Quando vi uma placa indicando a Highway, fiquei feliz. Talvez em outra ocasião, com outro espírito, Las Vegas, tudo é  possível.

Rota 66 e … Havasu Falls!

Saindo dali já sabia o que fazer. Curtir um pouco da histórica e famosa Rota 66. Fui rodando devagar e aproveitei pra tirar algumas fotos. Mas a minha cabeça, estava mesmo a procura de informações sobre outra atração! E acabei chegando a um lugar que me satisfez toda a curiosidade. A pequena cidade de Kingsman é um dos pontos de maior afluxo de turistas da estrada. Ali fiz até algo que não gosto muito. Visitei um museu. E no centro de visitantes da cidade obtive o que queria. Tudo sobre Havasu Falls.

Quando perguntei ao atendente sobre as cachoeiras, este me disse:

- Havasu Falls está dentro de uma reserva indígena. Você tem os “permits”!?

- Que reserva, que “permits”!?

- Sem ter esses papéis, que são  limitados a um certo número, ninguém pode ir lá. E se esgotam com meses de antecedência. Sinto muito. Você não pode ir. E se for, e tentar descer até ás cachoeiras, o oficial de turismo vai te cobrar uma multa pesada. Vai perder muito tempo indo lá. Tem que sair da estrada principal, dirigir por mais 100 Km numa estrada de acesso particular, deixar o carro no estacionamento, andar mais 16Km dentro de um Canyon estreito e depois ainda ficar um tempo vendo as cachoeiras, que são um pouco distantes umas das outras. Isso leva no mínimo dois dias. Tem toda uma estrutura e também tem um custo. Deve pagar pela entrada e pelo tempo que ficar,  de 2 até 7 dias, em Camping ou Lodge.

- Hummmmmmmm….. Tudo isso? Difícil assim?

- É mas veja bem, …… vale tudo. Tem lugares com tanta beleza, …..que as vezes só se vê uma vez na vida!

Uauuuuuuuuu….. E nao é que o homem disse as palavras mágicas pra pessoa errada!!

Peguei todos os mapas e informações, como telefones e horários, custos e dias de duração dos passeios ao local.

E não fiz planos. Só queria estar perto pra sentir o ambiente. Ver quem são as pessoas que lá vão. E lá me fui.

Na estrada principal sabia que tinha que parar nas Cavernas do Grand Canyon e pedir mais informações sobre coisas como o tempo  na parte de baixo do Canyon e outras coisas. A mulher que me atendeu disse que se eu quisesse muito mesmo, e pudesse, é claro, poderia tentar descer e subir no mesmo dia, pagando uma taxa especial para “Day Hiking”. Disse que seria um esforço muito estafante, mas se a pessoa estiver em boa forma física, vale a pena, afinal tem lugares que se vê apenas  uma vez na vida!

Hummmm ….. as coisas estavam melhorando! Essas palavras, repetidas, eram mágicas para mim.

Já estava anoitecendo quando entrei na estradinha que leva a reserva indígena. No trajeto não cruzei carro algum. E logo cheguei. No estacionamento cheio, estava tudo escuro e não havia nenhum movimento de pessoas. Achei meu lugar, ao lado de um enorme motor-home, e desci para curtir um céu cheio de estrelas. A luz mais próxima estava há mais de 100 km! Fiquei a apreciar as que ficam a milhares de anos luz!

Vi que tinha um banheiro público e um abrigo para o Oficial de Turismo. Estava fechado, e com papéis colados nas paredes com informações sobre a trilha e seus perigos, como cobras,  e enchentes repentinas, além das recomendações sobre o estado de saúde dos que se propõe a fazer o esforço físico para percorrer 32 KM, principalmente na volta, que tem um grande parte em subida, e, por isso tudo, …… vários avisos proibindo o tal “Day Hike”! Num deles dizia: – “You, No Day Hiking!” Parecia que tinha lido meus pensamentos! Me deixou preocupado. Melhor não transgredir as regras. Afinal estou de visita no país. E ser pego, e ter que pagar multas, não seria um bom momento, nem uma boa lembrança.

Fui dormir tentando chegar a um acordo comigo mesmo. Durante a vida, várias vezes nos vemos diante de caminhos extremamente opostos. Entre o certo, que nos torna “mocinhos” exemplares e satisfaz a todos, ou o proibido, que frequentemente nos fascina, e que pode nos transformar em simples bandidos, ou … heróis!

Ao amanhecer já havia me decidido pelo lado certo! Não iria! Afinal a proibição do “Day Hike” deve ter muitos motivos para ser tão enfaticamente colocada. Um guia local me relatou o caso de um rapaz, que na volta, perdeu-se nos caminhos do canyon face a escuridão e o cansaço. Vagou por 2 dias até ser resgatado todo sujo e esfomeado.

Sai do carro antes das 7 horas. O burburinho das pessoas que iam descer me despertou muito cedo. E fui ver a agitação toda, cheio de inveja. Aprontavam mochilas enormes, comidas, passavam grandes quantidades de bloqueador solar e enchiam garrafas de água.

Me acerquei de um grupo numeroso, onde dois guias davam as últimas instruções aos “clientes”:

- “Aqui ninguém é herói,  quero todo mundo andando no mesmo ritmo, sempre junto!”

Me senti como nos velhos tempos da turma do Marumbi, na serra do Mar. As longas caminhadas no sobe e desce da montanha. O trem onde, na volta, a gente se aninhava  sob os bancos, e dormia satisfeito ao embalo das rodas claqueando nos trilhos.

Ao final dos “conselhos” um dos guias me olhou e, acho que pela minha cara de cachorro ao pé da mesa, perguntou se eu não queria ir junto!!

- Yessss!!!! But….. não tenho o “permit ...”

- “Bem, nós temos sobrando o de um cliente que não veio. Se você quiser pode ir conosco. Só que não será possível você dormir lá embaixo, porque a permissão pra dormir é nominal. Você pode ir, mas tem que voltar hoje mesmo!  Olhe que não é sempre que se tem uma oportunidade dessas! Vamos!?”

Hummmmm…… palavras mágicas!!

- Vou pegar minhas coisas e já venho!

Não dei tempo algum para que minha razão pudesse me roubar a alegria que acabara de me inundar. É que me veio rapidamente a cabeça o fato de não vir se alimentando corretamente durante a viagem, além da falta de exercícios. Meu suprimento de energia acabara de receber uma carga rápida: o prazer de estar num lugar diferente, especial!

Sem mochila adequada, peguei a da máquina fotográfica mesmo. Dentro deixei só uma lente, troquei a camiseta semi-limpa por uma outra, já com algum suor e poeira, peguei duas garrafas de água, calcei um tênis e … mergulhei de cabeça …. no momento!!!

Tinha muita expectativa quanto as cachoeiras. Mas estar num Canyon como aquele parecia me bastar. Fui parando várias vezes pra “ficar olhando”, tentando absorver a beleza de cada formação, o tempo que demorou para esculpir todos os meandros e expor todas aquelas cores. Entre o vermelho e amarelo das rochas ainda brotava o verde da vegetação, além de algumas árvores esparsas, numa combinação que me fez pensar nas sutilezas e nas grandezas da natureza.

Como o grupo estava fazendo muitas paradas pra descanso, e eu teria que ir até o final e ainda tentar voltar antes da escuridão, pedi licença e fui em frente sozinho, apesar de ter lido algo como “é proibido permanecer sozinho na trilha”. Haveriam outros grupos pelo caminho. E sem ouvir as conversas próximas, o silêncio me permitiria aproveitar muito mais.

De vez em quando, alguns índios da reserva cruzavam o caminho, com seu cavalos carregados de mantimentos ou mochilas de “clientes” impossibilitados de carregar suas coisas. Cada vez que cruzava um, me pareciam “Indianas Jones” de verdade.

E durante umas 3 horas fui satisfazendo completamente a minha vontade de caminhar, olhar, admirar …. contemplar!

Quando cheguei a vila da reserva indígena estava cheio de imagens maravilhosas, e de suor e poeira. E de fome e sede!

No local tem um pequeno comércio onde é possível comprar algo. Água e umas batatinhas! Pronto! Já estava reabastecido e pronto para andar mais 2 milhas até as cachoeiras, num caminho sinuoso e poeirento pelo meio da vila, que tem posto de saúde e até escola com internet. Tudo fornecido pelo governo americano. Os índios tem uma vida boa ali. E ainda contam com toda a renda das permissões de visita.

Quando cheguei nas cachoeiras, fiquei um bom tempo parado, admirando as cores e formas das quedas que se sucedem rio abaixo. É impressionante o tom azulado. A composição do verde brilhante das folhas das árvores com o azul turquesa das águas é o que nos vai impressionando a retina. Nunca veremos algo igual.

Lembrei que poderia tirar fotos. Hummmmm… mas não tinha como chegar perto, para que as fotos pudessem retratar fielmente a beleza do que estava vendo. A única lente que estava comigo deixaria todas as imagens muito longe. Estava feliz por estar ali, mas acabei não gostando de saber que não poderia mostrar tudo, da forma como eu via, para as pessoas queridas que acompanham a viagem, e que também possam gostar de lugares assim.

A reflexão me trouxe á realidade do momento. Na vida nem sempre tudo é possível. E … tenho que começar rápido o caminho da volta!

Passei de novo pelo boteco. Na geladeira achei uma embalagem com uns pedaços de melancia. Era tudo de que eu precisava. Levei pra fora e me deitei num banco á sombra de uma árvore. Cada pequeno pedaço era uma enorme reserva de energia que me faria aguentar todo o esforço da volta solitária. Rapidinho estava de novo na trilha, contemplando cada pedra nos paredões avermelhados e, cada pedra que passava sob meus pés. Ficava procurando formatos em todas elas.

Como é bom quando toda nossa preocupação pode se restringir a apenas estar consigo mesmo.

Como tinha apenas duas garrafas de água, tratei de administrar os goles. Cada um seria um prêmio por uma hora de caminhada. Fiz minhas contas baseado na informação de podemos caminhar, normalmente a uma velocidade de 5 Km por hora. Levaria umas 4 horas!

Mas, e as subidas? …e a areia solta misturada aos trechos com uma poeira que parecia talco? …. e o esgotamento pelo esforço da descida sob o sol? … e a fome? E sentir-se sozinho, enquanto as horas vão passando e a escuridão passa a ser uma ameaça de respeito!? E demorei muito mais do que previra.

“You, don’t make a Day Hike!!!”  Agora era eu que dizia isso pra mim mesmo! E ainda lembrava das recomendações para não estar sozinho na trilha. …. e ainda lembrei das cobras! Já vinha ouvindo alguns barulhos estranhos desde a descida. Em alguns lugares do canyon esse barulho parecia vir de todos os lados. Eu nunca ouvira o “chocalho” das cascavéis. Mas aquele barulho não era de grilo.

Fiquei com todos os sentidos em alerta. Melhor, assim esquecia a distância, a fome e a sede.

Quando os últimos raios de sol brilharam nas paredes douradas do canyon, ainda estava bem distante dos caracóis que zigue-zagueiam até  o topo. Fazia tempo que não passavam mais índios puxando as filas de cavalos. E fazia tempo que não me animava mais a tirar fotos. E, de repente um susto enorme. O tal barulho que nunca ouvira. Uma cobra enrolada, bem ao meu lado. Me olhava e “chocalhava” estridentemente. Dei um salto enorme pra frente. e voltei a olhá-la. Lá estava a me fitar ameaçadora. Na distância aparentemente segura, também a fitei por uns instantes e … “viajei”!!  - “Fique feliz, acho que ela está só te saudando!!” E tratei de seguir o meu caminho, que nem era meu. Ali era a casa de todos aqueles seres e de muitos outros.

Anoiteceu e ainda estava em algum lugar distante do final. Mas me sentia feliz. Afinal, na minha essência eu pertenço a tudo isso. Há milhares de anos essa natureza foi esculpida em nosso DNA.

Com a roupa empapada de suor, as costas doloridas, as pernas meio bambas e a pele empoeirada cheguei ao estacionamento.

Não havia ninguém, além das estrelas e do vento, e do silêncio. Me permiti um grito de vitória. Sobre mim mesmo. Meus medos e minhas fraquezas, e minhas forças!

Um momento mágico!

Como é bom se sentir Vivo!!!