Diário

04/05/2013 - 09:03 | Postado por:
26- Um quase corajoso… 04-05-2013

Nova Zelândia! Há muito tempo vinha sonhando com esse destino!

Tudo o que se encontra na internet é um estímulo pra visitá-la. Paisagens lindíssimas, estradas perfeitas, povo alegre. Na minha cabeça, já tinha uma boa lista de lugares Pra visitar por aqui…  Milford Sound, Coromandel, Queenstown, Cape Reinga! Nem fazia idéia de que, além desses lugares, quase tudo aqui é um encanto para os olhos!

A começar pelas estradas! Quase sempre vazias. Sem nenhum buraco  e sem  placas confusas! A velocidade permitida é sempre 100 km/h. Seja onde for! Desde a mais  longa reta até a mais estreita serrinha cheia  de curvas. Você tem que exercitar  a responsabilidade. Percorrer cada pedacinho da NZ de carro é uma experiência inebriante. Apenas nas cidades o limite cai pra 70, ou 50 nas proximidades de escolas, bombeiros, etc. Pra resumir o que é, pra quem conhece a Estrada da Graciosa, imagine-a um pouco mais larga, todinha com asfalto lisinho e com mais de 2.000 km de extensão. Bom né!? Mas acrescente ainda uns glaciares, vulcões,  praias desertas, lagos, cachoeiras e infinitos campos verdes cheio de ovelhas…!

Não é pra menos que o que mais se vê nas estradas são turistas de todas  as partes do mundo circulando, a maioria em Motor Homes alugados. O preço médio é  US 100 por dia. Eu optei por um carro um pouco menor. Peguei um Nissan 2005, automático, station wagon. Ja vem com todo o equipamento necessário pra viajar muitos dias, possibilitando dormir dentro com todo o conforto. Vem com 2 colchões, louças e talheres, galão pra água, extensão com cabo de 15 metros e lâmpada, mosquiteiro e GPS. Paguei US 27 por dia! Tinha a opção de utilizar um ônibus que leva a maioria dos mochileiros por toda a NZ por um preço bem barato e permite que a pessoa fique uns dias no lugar que quiser e depois retome a viagem. Tem até um ano pra percorrer todo o país. Fiz as contas e achei que o preço do ônibus, mais a hospedagem, além de ter que procurá-la todos os dias, sairia bem mais caro do que o aluguel e o combustível. Além da total liberdade e privacidade.

Pude dormir em lugares lindíssimos. Parar pra tirar fotos pelo tempo que nem ouso contar …. E tomar café a cada 2 horas mais ou menos!  Rssssss….. É que aqui eles tem mania de café! E fazem um melhor  que o outro. E ainda tem um que é do jeitinho que gosto. O Flat White! Uma xícara enorme, daquelas de segurar com as duas mãos, um pouquinho de café, muito leite, desnatado, e ainda vem com um desenho de um coração pra gente lembrar que, além do café, e o amor que nos esquenta mais o corpo e a alma!

HABITOS

Durante a viagem da América do Sul ao Alaska aprendi muito sobre viajar sozinho. Os hábitos de alimentação tradicionais, café, almoço e janta foram substituídos por uma forma mais natural. Alimentar  o corpo quando este pedir, e com o que ele pedir! Aqui logo retomei esse hábito. Ao acordar tomo café, 3 fatias de pão com geléia, uma tigela de granola com leite desnatado, banana ou maçã e um complexo vitamínico. Durante o dia vou tomando uns cafés, degustando umas frutas secas entre um monte de paradas pra curtir cada pedacinho do caminho.

O plano é sempre o mesmo, ir seguindo. Náo me preocupo em chegar. As vezes chego a ficar horas olhando um lugar. Sento, aprecio, tiro fotos, caminho de um lado para o outro, sento de novo, mais fotos. Um pouco com a máquina  e muitas com a cabeça. Fico memorizando o que vejo. Guardando um monte de mega pixéis de lembranças. Ja aproveito e faço um “photoshop” mental Em cada paisagem. Viajo !! Tento imaginar o que diriam as pessoas que amo se ali estivessem. Tem lugares onde me sinto a pessoa mais previlegiada do mundo, só por poder estar ali, naquele momento. E desejo que todos pudessem ver o que estou vendo ou sentindo!

Alguns lugares chegaram a emocionar realmente. As Pancakes Rocks são impressionantes. Mostra toda a força de transformaçáo da natureza. Chegar a Cape Reinga e apreciar o mar bravio. A Tiki Road, entre Thames e Coromandel, foram os 60 kilometros mais longos da minha vida. Demorei um dia inteirinho dirigindo numa estrada pendurada entre o mar e as montanhas. A beleza singela de Slope Point e Nugget Point com suas perfeitas estradinhas de terra. A rodovia entre Mildford Sound e Te Anau, percorrendo uma floresta tão úmida que até o asfalto tem musgo. A maravilha sem fim da estrada que segue junto ao mar por toda a costa oeste.

Mas fazer um passeio de Jet Boat pelos canyons de rios com água azulada foi algo que realmente mexeu comigo. Sensação incrível! Como gostaria que todos pudessem sentir tudo que estava sentindo naquele momento. Decidi que iria ter que compartilhar aquilo com quem quisesse. Resolvi voltar no outro dia só pra filmar tudo, do começo ao fim. Á tardinha percorri a cidade atrás de uma cinta pra fixar a GoPro na cabeça e mais uma bateria que fosse acoplada á bateria original pra não correr o risco de acabar a da máquina. Comprei novo ticket e já fiquei mais feliz, apenas  por isso!

Em Queenstown tem 4 passeios de Jet diferentes. Em preço e “roteiro”. O que fiz é o mais caro e demorado. É o que percorre o “Skippers Canyon”. Para chegar até o rio, tem que percorrer um desfiladeiro. Um lugar lindíssimo, que segue por uma estrada sinuosa, recortada na montanha. Não é permitido aos carros alugados circular por ali. As placas na entrada desencorajam os motoristas menos experientes. Tem alertas como: “estrada com barreiras instáveis” , “aqui os danos não são cobertos por companhias de seguro” , “grandes possibilidades de danos” , “estrada pode ficar congelada” . Mas, se estivesse ainda com o carro, certamente iria percorrer aqueles 22 km, que pra mim passaram a ser considerados, até agora, como a estrada mais bonita do mundo! E ainda é o lugar que serviu de locação  para o filme “Senhor dos Anéis”! Uma aventura!

AVENTURA

Falando em aventura, a Nova Zelândia inteira é um parque de diversões infindável pra quem é do ramo. A roupa que mais usam é gorro, jaqueta, calção e bota! E a maioria usa roupa preta. São fanáticos pelo futebol americano. Só que aqui os jogadores não usam proteção alguma. E por isso mesmo a maioria deles são desdentados. Batem, agarram, derrubam, agridem mesmo, sem dó. E o povo adora!  Os All Blacks é o melhor e mais tradicional time daqui. Onde quer que se vá tem algo relativo a esse time. Orgulho nacional! Não chega a ser um Atlético Paranaense, mas ….

Ainda falando em aventura, como estou no país onde isso é a rotina, eu tinha, pelo menos duas atividades nos planos. Jet Boat e Bungy Jump. Do jet ja falei. O bungy fui fazer em Queenstown. Se a Nova Zelândia é o país da aventura, Queenstown é a capital! Circulando pela cidade se respira esportes radicais. Lojas que vendem e alugam equipamentos estão espalhadas por todas as quadras da cidade. Hordas de aventureiros circulam pelos pontos de vendas de tickets pra tudo que se possa imaginar. O dia inteiro ficam circulando ônibus. Uns levando turmas alegres na expectativa de momentos de adrenalina pura. Outros trazendo os “coitados” arriados…..

O meu bungy, fiz do alto da gondola, com toda a vista da cidade em baixo. Antes do meu salto, era a vez de uma menina. Tive que esperar uns 20 minutos! Ela tremia. Não conseguia dar o passo no vazio. Ia até a ponta e voltava. Chegou a dizer que não queria mais: “eu não preciso fazer issoooo…”. Mas na hora que iam tirá-la, resolveu pular. Sob o aplauso das amigas que tinham subido pra dar uma força, e pra alegria da galera que estava assistindo e gritando:… Pula, pulaaaa…”

Na minha vez o instrutor, depois de colocar todos os ganchos e etc. , foi dizendo: ” conta até 4, corre e dá um salto bem grande”! Foi como uma intimação! E lá fui eu! Mal pulei e já  senti um puxão da corda. Sem graça!! É! Isso mesmo, bem sem graça. Explico!

O BANANA

É que uns dias antes, ao passar pelo Fox Glacier, Alpes do sul da NZ, vi um folheto que dizia:” SKY DIVE, isso é para poucos! Se você não é capaz de enfrentar seus medos … Vá pra casa~, e passe o resto da vida com isso!” Bem bolado né!? Pra mim pegou na veiaaaa! Não gosto nem de pensar em tirar os pés do chão. Paraquedismo pra mim é coisa de maluco  mesmo! Não gosto nem de viajar de avião! Massssss….Não gosto mesmo é que me desafiem. Adoro desafios. E ali estava um que iria me vencer. Sky Dive! Afinal não sou obrigado a nada! Masss… meu lado racional não foi páreo!

E lá fui eu fazer a reserva. “Calma, você só vai fazer a reserva primeiro. Depois pode desistir quando quiser!” …. Foi o que eu disse pra minha cabeça pra poder me colocar na direção do balcão. Ticket na mão, já me sentia meio herói sobre mim mesmo: … “e amanhã vou mesmo!” Era uma forma pra continuar a me convencer a não desistir. E fui. Peguei o carro e apontei na direção do lugar combinado. Fui mesmo!

Chegando no local determinado, lá estava o “teco-teco” todo enfeitado. No escritório ja tinha um casal esperando. Preenchi um formulário extenso, isentando a empresa de tudo que venha a acontecer, deixei o numero de telefone de parentes. Declarei que não tenho doença alguma de coração, próstata (nem sei a razão….) e outras mais, e fui colocar a roupa e acessórios. Tem que escolher a altura da qual se vai saltar. Pode ser 12, 14 ou 16.000 pés.  Este último exigindo a utilização de oxigênio. Já que poderia morrer, que fosse bem morrido né. Que seja do mais alto possível! Roupa colocada, fivelas super apertadas, hora do Briefing. O instrutor chefe passa e repassa tudo em revista e fala tudo o que você precisa saber se não quiser morrer e matá-lo junto. Além de manter a calma, é dado ênfase á necessidade de fazer a posição da “banana” assim que saltar do avião. Mostrou como é. Deve-se ficar com os braços e pernas esticados e arcados para trás como o arco de uma banana. É muito importante, pois é a única forma de estabilizar o vôo e não sair rodopiando céu abaixo. Por isso enfatizou bastante: “não esqueçam, Bananaa! ” E lá fomos. O espaço dentro do avião é mínimo. Estávamos em seis. Três instrutores e três corajosos …..rsssssss “otários”.

Cada instrutor entre com seu “par” E se ajeita num cantinho. O meu sentou perto do piloto e fez sinal pra eu sentar no seu colo. Fui né. Ele foi me puxando pra cima e logo passou uma cinta pela minha barriga e ombros, e começou a apertar. Cada vez apertava mais. E lá estava eu preso no colo de um cara que nem achava simpático nem nada!

E o aviãozinho foi subindo. Passou as nuvens. Lá embaixo o imenso rio de gelo do Fox glacier já parecia bem pequena, e as enormes árvores amareladas pelo outono pareciam um tapete que se estendia até o horizonte longínquo. Quase ia me deixando enlevar por tanta beleza, quando senti um novo puxão de uma mão me puxando pra trás, pela barriga..  Meu corpo estava totalmente amarrado ao do instrutor e ele não parava de ajustar mais e mais as fivelas.

Subimos mais e logo recebemos as máscaras de oxigênio. Ele colocou-a sobre minha cabeça e disse: ” Respire normalmente” . Me apertou mais ainda contra si e falou no meu ouvido:” Relaxaa, relaxaa….não esquece…  Bananaaaa!”

Rsssssss….. Falando assim, ao invés de relaxar, quase dei uma cotovelada nele!

Após subir mais um pouco, vi o instrutor da frente dar um puxão na porta do avião abrindo-a. O vento súbito uivou forte no cubículo apertado. Mal abriu e já estavam saindo. Meio deitado, meio acocorado, meu instrutor foi me empurrando pra pequena abertura da saída. Já pendurado ele berrou no meu ouvido: ” olha pra câmera e da um sorriso, e lembre…. Bananaaa!”

E despencamos céu abaixo. Não sentir o peso do corpo ao cair no vazio chega a ser aterrorizante. O ar entrava por baixo da viseira e me fazia lacrimejar sem parar. As mãos desprotegidas estavam congelando. Tratei de me esticar todo, mas na verdade a posição que sentia estar fazendo já nem sabia se era a da “banana” ……ou a Do Banana! O que senti nem era mais o medo de morrer. Já era uma questão de quanto tempo iria demorar!!

O instrutor colocou sua mão com a câmera atada ao pulso e pediu pra eu fazer um sinal de “positivo”.  Mal pude levantar o dedão.

Passamos as nuvens e o chão ainda estava longe. Ia demorar um monte até me estatelar lá embaixo. De repente um forte puxão. O paraquedas estava aberto. Ufaaa! Não seria desta vez. Começamos a voar. Após mostrar como se mudava a direção do paraquedas, o instrutor me passou o comando das alças do controle. Fui virando pra todos os lados. Realmente muito lindo poder se sentir igual aos pássaros e contemplar tudo de um ângulo inusitado. Mas a sensação boa não durou muito.

O instrutor disse que por sermos leves e eu estar muito bem, poderíamos ficar mais tempo voando e fazendo umas acrobacias. Mal terminou de falar fez um looping e ficamos de ponta cabeça por umas duas vezes. Pronto! O meu farto café da manhã quase foi parar na cara dele. Travei tudo e rezei pra acabar logo. Que nada. Voltinha pra lá, voltinha pra cá e eu já sabia como ninguém qual a posição do banana!

Até que o instrutor chefe fez sinal pra ele descer. Pernas pra frente, aterrissamos sentados. Ufaaa. Tratei de soltar logo as fivelas que me mantinham de forma comprometedora.

O instrutor foi logo perguntando: ” E daí, foi bom pra você!?”

Sem graça respondi:” Você é o melhor”!

A caminho do carro estava me sentindo mal. Tinha acabado de produzir adrenalina que levaria mais de um ano pra gastar. Fraco e meio zonzo Levei o carro até um lugar afastado e …. Dormi!

Dias depois, em Queenstown, no Bungy Jump que fiz, sobre a cidade, logo após colocar as cintas e ser conectado aos cabos, já em seguida, corri e dei um grande salto no ar.

Na saída, uma senhora chegou perto e disse: ” Nossa,  como você conseguiu chegar lá em cima e ir se atirando! Você não tem medo? Isso  sim é que é ter coragem!!