Diário

04/09/2012 - 05:07 | Postado por:
22- … Sonho Americano! E nossos sonhos!! – 04/09/2012

Na escuridão, uma lamparina pode ser ... o Sol!!

Em Família!

Da cama grande e macia, através da cortina na porta, eu vislumbrava o gramado verde e o portão, que se abria para o longo deck de madeira que seguia até um lago rodeado por velhas árvores, enfeitadas com longas “barbas” que vinham até o chão.  Ao invés do calor, que me acompanhara durante a maior parte da viagem, soprava uma leve brisa vinda das aberturas no teto.

Fiquei oscilando entre dormir e acordar. Misturavam-se os limites entre a consciência e o sono, e o sonho. E não estava no Teimoso. Era uma casa linda e grande, ao estilo americano, com todas as amenidades possíveis.

Logo, ouvi barulhos e saí da cama. Não estava sonhando. Fui ver meu novo mundo.

A casa de meu irmão em Tampa Bay. Para nossos padrões é uma casa do futuro. Aqui já é quase comum. Ar condicionado central com sensor de temperatura para cada cômodo. Aspirador central com engate para a mangueira espalhados pelas paredes da casa, sensor de fumaça, intercomunicadores com música ambiente por cabo. Monitores de TV nos banheiros. E mais algumas mordomias como mesa de sinuca, ping pong e máquina de jogos eletrônicos.

É uma casa como tantas outras, de um condomínio da cidade, que se espraia pelas baías do litoral da Flórida. No condomínio, o Teimoso passou a ser uma atração. Todos os dias vem gente pedir para tirar fotos e dar “uma olhadinha”. E minha rotina de viajante solitário está tendo uma pausa.

No dia que cheguei, fui recebido com balões e gritinhos de minha cunhada Andréia, os sorrisos de meu irmão Marcelo, e a curiosidade de meus sobrinhos Bibi e Breno. Sabiam exatamente o minuto que eu iria chegar. Estavam com um celular na mão, me acompanhando pela Link Monitoramento. Confesso que passei propositalmente da vaga que tinham reservado pra mim, e demorei um pouco mais para estacionar e desligar o carro. Não estou acostumado com tanto carinho. Precisei de um tempinho  para poder sorrir e falar normalmente.

E desde então, todos os dias, me sinto em família. Até já aprendi algumas coisas sobre futebol americano. Fui ver o Breno jogar pelo time de escola dos Gators. Penso em “curtir” um pouco desse sentimento gostoso  e que me faz feliz. A Bibi pediu para que eu fique até “descobrir que ela é uma menina legal!”

- Bibi, …deixa eu ficar mais um pouquinho!!??

Furacões!

 Tampa Bay é um dos melhores lugares do mundo para se viver. Não fossem os furacões cuja temporada vai de maio a setembro.

Assim que cheguei, veio junto a ameaça de um furacão. E dos grandes. Um tal de Isaac!!  A cada um é dado um nome diferente. Para facilitar as informações, as iniciais dos nomes mudam. Os primeiros do ano tem nomes que começam pela letra “A”, seguindo-se “B” em diante. Assim o Isaac já é o nono da temporada. Na televisão e rádio são emitidos avisos constantes, sobre a velocidade, previsões de rota e categoria. Pode começar sendo classificado como uma “tempestade tropical”  e se transformar em furacão de classe 1 até 5, com ventos de mais de 190 p/hora. A previsão desse era nos atingir em cheio, e com força de furacão. Por sorte foi desviando. Mas alguém sempre acaba sendo atingido. E dessa vez, New Orlens, já devastada pelo Katrina em 2005, foi atingida de novo.

Felicidade!

Passado o susto e algumas chuvas e ventos fortes, veio a bonança. Em dois dias já havia sol. E pude curtir um pouco mais do jeito de viver americano. Nas conversas, desde que entrei nos EUA, já pude perceber, e ouvir deles mesmos sobre sua paixão por carros. E tudo relacionado a veículos se transforma em motor da economia americana.

A crise econômica de 2010, que abalou os mercados do mundo todo, aqui fez muitos estragos. E dizem que ainda vão demorar mais um pouco para se recuperar.

Olhando o movimento todo, nas estradas e cidades, não imagino mais carros, motos e caminhões circulando. Um dos momento mais tensos pra mim é quando entro nas grandes cidades, e me vejo circulando com o Teimoso num emaranhado de viadutos, com piso de concreto, que faz aumentar o barulhos dos pneus em contato com o piso. E todos andando a mais de 100 Km/hora. Ali sempre esgoto meu estoque de adrenalina.

Me impressiono com a voracidade consumista do ser humano. Carros, comidas, eletrônicos, remédios e uma variedade quase infinita de serviços, de tudo que se possa imaginar, aqui é vendido. No caminho para Tampa, encontrei um casal aposentado viajando com um enorme motor-home. Ficamos conversando numa “Rest area” (locais com boa estrutura para descanso ao longo das highways). Perguntei-lhes sobre o valor do veículo:

- U$ 700.000!!! Mas ….. já estamos olhando um outro, um pouco melhor! Vai custar U$ 1.300.000 ….

- Carambaaa, … mas vocês acham que a troca é necessária mesmo!!??

- Durante nossas vidas trabalhamos duro, ganhamos dinheiro e o guardamos. Agora  temos que gastá-lo!!

Passei algumas horas tentando digerir essa resposta. Não haveriam outros sonhos…?? E após vários dias … as vezes me pego pensando nisso!!

Até que ponto as pessoas podem ou devem “sonhar”? Os muito ricos tem sonhos? Será que o dinheiro pode satisfazer todos os nossos sonhos? E não se trata de um questionamento dos sonhos dos americanos, mas dos nossos sonhos! Todos temos a obrigação de rever nossos hábitos de consumo, impostos por um capitalismo selvagem e que se devora a si próprio.

Coincidentemente,  meu irmão Marcelo veio me mostrar um discurso, feito no encontro Rio+20, pelo presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, o presidente mais pobre do mundo, pois doa 90% de seu salário. Em suas palavras lembrou da confusão entre felicidade e consumismo. Cita o caso das empresas que produzem lâmpadas que duram 1.000 horas, sendo que a tecnologia que possuem, lhes permite produzir outras com duração de 200.000 horas. E lembrou também de uma antiga frase usada por Epícuro, Sêneca e conhecida até pelos índios Aymaras:

- ” Pobre não é o que tem pouco, mas sim o que necessita infinitamente muito, e deseja, e deseja, mais e mais”!

Lembrei também de um livro que marcou  minha juventude, escrito por Victor Hugo, onde aprendi que, financeiramente existem os ricos e os pobres. Mas que a verdadeira riqueza é a espiritual, onde também existem os ricos e os pobres, de espírito, e até Os Miseráveis!

Grande parte da felicidade proporcionada pelo que compramos se desfaz no dia do pagamento da primeira prestação, ou assim que é anunciado um “modêlo novo”!

A felicidade é um sentimento de satisfação, momentâneo e individual. Levei muito tempo construindo esse pensamento. E quando penso nos meus momentos mais felizes, lembro vagamente da alegria que senti, quando comprei o meu primeiro carro. Mas lembro muito mais, de alguns simples abraços que dei, ou ganhei de meus filhos. E a lembrança desses momentos, ainda me traz felicidade!!