Diário

15/09/2013 - 12:34 | Postado por:
36- Trucando no Black Jack! 15/09/2013

Se algum dia der um presente, prefira um que projete um futuro melhor …

Chegar ao Laos era uma das minhas grandes expectativas. Não só pelas belezas naturais, mas também para conhecer o povo, com uma história parecida com a do Camboja. Muitos anos de guerra civil e um saldo de anos de atraso em relação á modernidade. Em toda a viagem, até agora, foi o único lugar onde vi tratarem um aparelho de fita cassete como última novidade eletrônica!

Para entrar no país, vindo do Vietnam, tive que descer do ônibus e andar mais de um quilometro, na chuva e no barro, entre as aduanas para poder carimbar o passaporte. E isso depois de uma noite sem dormir, porque o banco-leito só tinha duas posições: uma total reclinado, mas que deixava o encosto apoiado sobre as pernas do passageiro de trás. Outra a 90 graus, apoiado em pedaços de pau, que foi a que me vi obrigado a usar. Isso sem contar que se funcionasse normalmente, o banco era, ao menos, 30 centímetros menor do que eu!

A capital, Vientiane, foi uma surpresa. Moderna, com ruas largas e muita atividade econômica. Mas bastava se afastar um pouco do centro e já dava para perceber a pobreza escancarada. Em todo o sudeste asiático os custos de viagem são muito baratos. Um hotel razoável, com internet e ar-condicionado custa em torno de U$ 10. Tratei logo de seguir em direção a lugares mais pitorescos. Nomes como Luang Prabang, que já trazia na memória desde tempos de colégio, estavam ali pertinho. Ir de ônibus significaria a possibilidade de passar por paisagens lindas e não poder parar para admirar ou fotografar. Assim, resolvi alugar um carro, só para mim, sair cedinho, e ter um dia inteiro para percorrer 200 km. Esclareço que por essas bandas, alugar carro inclui, quase sempre, a obrigatoriedade de pagar um motorista também. Distâncias como 200 km, as vezes demoram muito mais do que 6 horas. O ônibus demora 8 horas para fazer o mesmo trajeto, estreito, cheio de curvas, montanhas, desmoronamentos e passando por muitas vilas. Paguei U$ 90 por tudo e valeu cada centavo!

A melhor vendedora do mundo!

Circular pelas ruas da histórica Luang Prabang – patrimônio mundial pela Unesco – é uma viagem de volta ao passado. Casarões da época da colonização francesa estão em perfeito estado, e se mesclam com os muitos templos budistas, e com o modo de vida simplista de uma pacata cidade interiorana. Monges circulam sorridentes em seus trajes cor laranja. E a fachada antiga de alguns prédios escondem ótimos restaurante franceses e cafeterias onde … saboreei um enorme Caffe Late e me lambuzei com uma perfeita torta de banana!!! Aqui, quem diria!

Nas ruas, lojinhas de souvenires e joias muito exóticas, feitas por artesões locais. E vendedores ambulantes caçando turistas ávidos por “coisas diferentes”. Me acharam rapidinho!!!! Uma menina de uns 12 anos. Miha, que me contou que quando era menor ia pra escola, mas agora precisava ajudar no sustento da família.

Disse ter aprendido inglês, cada dia um pouquinho, tentando vender coisas para turistas. Em vez de brincar, durante o dia levava um cesto, com bonecos feitos em casa. Chegou sorrindo, e sorrindo a cumprimentei e convidei pra sentar na calçada. Mostrou todos os seus “produtos”. Vi que a maioria dos bonecos estavam com algumas partes descolando: “que cola ruim que você usa!”

- “É o que a gente tem e pode!” Lembrei que tinha um tubinho de Super Bond na mochilinha. Abri e passamos a revisar todos os bonequinhos. Ela fiquei entusiasmada com a rapidez da cola e disse que sua mãe também iria ficar maravilhada. E lá se foi minha cola! Me diverti um bom tempo “pechinchando” para comprar 2 bonequinhos. Um homem e uma mulher para pendurar na mochila, simbolizando eu e a Ro!. Tive que exercitar muito o meu poder de convencimento para fazer o preço descer a míseros centavos de dólar! Foi uma ótima negociação. Algo meio “profissional” até! No final, paguei só U$ 0,50 pelos dois! Tinha lá minhas segundas intenções! Disse a ela que poderia ser uma ótima vendedora se exercitasse bastante os seus argumentos de venda e aprimorasse seus produtos. Mas que uma vendedora de verdade, já nasce com esse dom. E isso ela tinha de sobra!! Combinamos de ser sócios na próxima venda que fizesse, com algumas orientações minhas, somadas a sua simpatia : -”Turistas geralmente compram por impulso. Examine bem as pessoas. Antes de tentar vender, sempre converse um pouco para conhecer mais e formar um ambiente de simpatia.” Ao vermos um casal de japoneses lhe disse: -”Ali vem tua oportunidade de vender rápido, com bom lucro. Eles querem comprar e você precisa vender.”

O casal, cheio de sorrisos, e começou a conversa. Logo ela foi mostrando os bonequinhos. A mulher olhando os detalhes e o marido pensando … no bolso! Pra que serviria aquilo!? Só umas bobeirinhas a mais!?

Hora de intervir! -”Hei moça, sabe que esses bonequinhos lhe garantirão fidelidade do teu namorado quando ele estiver sozinho? A minha namorada me obrigou a usar isso na minha mochila, pra que todos saibam que formamos um casal!” A japonesinha olhou pro namorado e esse riu meio de canto de boca. Ela não perdoou!

-”Compra já! Paga aí!” E arrancou os bonequinhos da mão da minha vendedora, mais sorridente que antes. – “São U$ 7 cada um Sir!!” -” Deixa por 5, ok?”, interviu a mulher. -”Hummmm…. família, escola dos meus irmãos…. mas… tá bom, paga 10!”

E lá se foram os dois enamorados, felizes. Muito! Afinal os 2 bonequinhos por U$ 10, era uma pechincha, ante o valor de um sentimento, e ainda os garantiam unidos por muito tempo, graças aquela compra milagrosa.

E minha vendedora estava se graduando na profissão. Mas depois conversamos muito mais sobre sua necessidade de voltar pra escola. Disse que já sabia, mas nem lápis as vezes tinha. Os que ganhava na escola, seus irmãos menores quebravam. Lhe mostrei minha lapiseira alemã. Ela olhou encantada e perguntou quanto tinha custado. Disse: “U$ 25! Ela arregalou os olhos. -”Dá pra mim. Posso vender e ter todo esse dinheiro!”

-”Olhe bem pra essa lapiseira. Ela é muito boa e resistente. Muito difícil quebrar. Assim, quando você tiver 60 anos, vai olhar pra ela e lembrar que, se você conseguiu tudo na vida, alguém lá atras, que lhe deu essa lapiseira, foi quem te mostrou um pedacinho do caminho.”

Trucoooo!!

Viajantes de “longo curso” se expõem a riscos. E gostam! Nada que lhes ponha a vida em risco. Mas cada um tem seus limites. E as situações são inúmeras e se apresentam de formas, as vezes, inesperadas!

Na praça central de Vientianne, uma multidão de locais fazia ginástica aeróbica, de frente para o por do sol sobre o rio Mekong, e ainda se exibindo para centenas de turistas. E lá estava eu, com minha câmera e curiosidade sempre meio fora do normal. Em lugares como esses, no sudeste da Ásia, no meio de tanta beleza, e vendo a pobreza de vários povos, ao  longo do caminho vamos nos desarmando das malícias e desconfianças, comum em lugares menos exóticos. Conversas entre turistas, troca de informação, curiosidade, necessidade de se comunicar, tudo isso faz parte de nosso dia a dia por aqui.

Pertinho de mim, um casal sorridente foi puxando conversa. -”Olá, de onde você vem, para onde tá indo, como tá viajando, por quanto tempo, qual o próximo destino!?” Perguntas que quase todos os dias ouço e as vezes também faço. E a conversa rolou solta. Ao final, nos despedindo, eles me convidaram para, um dia, se puder, visitar as Filipinas, onde poderia ficar na casa deles, sem pagar nada. Agradeci e disse o mesmo em relação ao Brasil. Falar em Brasil por essas bandas é sinônimo de empatia instantânea. Todos sonham com o Brasil. Sem exceção!! E esse casal não foi diferente. De tão entusiasmados (rsssss…… pensei eu!!) me convidaram pra almoçar na casa do irmão deles, no dia seguinte, prometendo um almoço inesquecível. Coisa especial pra brasileiro esfomeado! Até sugeri que não esquecessem que as vezes sonho com “strogonoff”! (vã esperança…). Pegaram meu endereço do hotel, e ficaram de passar as 13 horas para me buscar.

Dia seguinte, hora combinada, estomago “nas costas”, Tuk Tuk na porta, com os dois filipinos alegrinhos me acenando. Mochilinha pendurada lá fui eu. Enfim, um almoço de verdade, especial, só para mim. Feliz da vida e me sentindo importante até!

Na chegada, a mulher foi logo me apresentando pro irmão: “Aqui está o nosso convidado, Sir James Bond, Sean Conery em pessoa!!!  Risada geral. Achei muita bondade com o tal do Conery!! Partimos logo para uma cervejinha gelada, Beer Lao. Eu que não sou muito de cerveja, aqui não tem como escapar, o calor obriga, o corpo agradece, e essa, até o paladar aprova. Logo vieram “os pratos”.  E que pratos! Arroz, frango num molhinho aguado e repolho estraçalhado. Esse era …. O Meu Banquete tão aguardado. E quem disse que não era um banquete? Afinal isso aqui não é Brasil, e para os padrões deles, isso podo ser o máximo que eles puderam me oferecer. Tenho mesmo muito que aprender, sim senhor! Esses foi o pensamento que me trouxe a realidade.

Durante o almoço, o anfitrião foi discorrendo sobre seu trabalho. Disse ser “Dealer” em Macau, no maior  cassino do mundo, com uma filial semelhante em Las Vegas. Disse que sua especialidade era comandar as mesas de Black Jack. Comentei sobre um filme que tinha visto, onde os protagonistas ganharam muito dinheiro, usando truques e matemática para adivinhar as cartas, até que a segurança do cassino descobrisse a tramoia, brindando-os com um bom e merecido espancamento.

Ele explicou que aquilo jamais poderia acontecer num cassino hoje em dia. Existem câmeras em todos os lados, e pra cada rosto dos participantes de cada mesa. Acrescentou ainda, que existem apostadores, que, por serem pessoas públicas ou muito famosas, e que não querem se expor como jogadores perdulários, exigem privacidade absoluta, sendo encaminhados para salas exclusivas. Ali jogam, apenas eles contra a “casa”. Sentam á mesa só 3 pessoas. Eles, uma pessoa representando a casa e o “dealer”. Só. Sem câmeras. Explicou que isso faz com que  a casa nunca perca quantias altas, pois o “dealer”, supostamente neutro, sempre é “comprado” pela casa, que lhe dá porcentagens altas sobre os lucros. Mas também abre a oportunidade de que o jogador, muito profissional e rico, converse com o dealer e lhe ofereça porcentagem muito superior, fazendo-o jogar contra o empregador.

Logo que terminou o almoço, começou a me ensinar vários truques, que fazem com que nenhum jogador, por melhor, ou mais sortudo que seja, jamais ganhe quantias grandes. Mostrou como o dealer faz para, dando as cartas, fazer sinais, com a boca, dedos e cartas, para mostrar ao seu “sócio” todas as cartas em jogo e as que ainda venham a ser dadas.

Aprendi tudo muito rápido, afinal não é nada difícil. Vi que realmente não tem como alguém ganhar. Fiquei impressionado, e até lhe falei de nosso jogo preferido no Brasil, o Truco, onde o jogador também tem que ter muitas habilidades e truques para poder se sair bem. E onde o blefe é escancarado, e o “roubo” é quase parte do jogo!! E agora eu estava virando um expert também no jogo dele. Até elogiou minhas novas habilidades, após treinarmos umas rodadas, regadas a Beer Lao, é claro!

E o assunto logo voltou, rapidinho, ao Black Jack dos cassinos! Explicou que conhecia uma senhora japonesa, muito sortuda, e também com muito dinheiro e que sempre o procurava procurando promover jogos privados contra a “casa” ou outros jogadores endinheirados. Disse que a quantia nesses jogos privados é combinada entre os jogadores, para que não haja surpresa, nem um obrigue o outro a “correr” do jogo por apostar quantias astronômicas. O normal girava em torno de U$ 500.000! Só!! Mas, acrescentou que essa mulher era muito dinheirista, e que sempre prometia valores muito mais altos do que lhe pagava na realidade.

Porém, recentemente, tinha acontecido algo que o deixara a beira da falência. Sua mãe estava com câncer num hospital e o tratamento tinha custos proibitivos. Poderia vir a falecer caso não pagasse. Disse estar especialmente triste naqueles dias, pois sabia que a mulher estava na cidade e lhe procurara para um jogo privado. Porém como não dispunha de um jogador profissional e com dinheiro, não adiantava marcar nada. E aí que, oportunamente, entrava Euuu !!

Pois é, de um momento para outro virei jogador profissional. Foi dizendo que precisava apenas do dinheiro que ela lhe devia, e que isso seria mais do que suficiente para pagar o tratamento de sua  querida mãe. Contando com ele como “dealer” e após eu ter aprendido todos os truques de dealer no Black Jack profissional, não teria como perdermos dela e ainda eu teria uma porcentagem.

E não é que o telefone tocou logo em seguida. Piscadinha para mim e… -”Alouuwww…. Miss Chan!? Que bom falar com a senhora. Não acredita, mas tenho aqui na minha frente o Mr, Mólow, um famoso apostador de Los Angeles (até arrumei minha postura na cadeira…). Se a senhora quiser ele tem um tempinho razoável. Será que a senhora poderia vir até aqui?”

E não é que ela topou! Rsssssss….. Que sorte a minha. Almoço grátis e ainda uma bolada em dólar!! Não demorou 5 minutos e o barulhinho característico de um Tuk Tuk zuniu e parou na frente da casa.

-”Miss Chaaaaan….como vai indo? Hoje é um dia muito feliz para mim. Receber duas visitas ilustres na minha simples casa. A senhora e o Mister Mólow Conery!! (..sorrisinhos…). Fez ela sentar-se á mesa e lhe explicou rapidinho sobre minha fama mundo afora, e perguntou se ela estava disposta a me enfrentar num jogo privado naquele momento. Ela foi toda sorrisos! Perguntada quanto estava disposta a jogar, abriu  uma bolsa negra e colocou um maço gigantesco sobre a mesa. -” Para o senhor está bem U$ 500.000!?” Olhei aquilo com cara de espanto. Jamais tinha visto um bolo de tal tamanho. Ela levantou e pediu para lavar as mãos. O meu “amigo e sócio” logo olhou pra mim e piscou umas 5 vezes! -”Hoje é meu dia!… Nooosso dia!!” E me entregou nas mãos, U$ 300, explicando saber que eu não tinha dinheiro, mas que precisava ter o mínimo para abrir o jogo. Esse seria o valor de minha aposta inicial!!

Logo a Miss Chan voltou e……… minha cabeça procurava soluções!!! Piração total!!

Me sentei no fundo da cadeira e fui dizendo que tínhamos tempo. Que no Brasil eu trabalhava a serviço do governo federal. Tipo, um agente externo. Não bem um “James Bond”, mas também era a serviço do “rei” (Lula – não podia pronunciar esse nome, porque o assunto era sério, e não queria risos no momento), que me pagava regiamente para exercer minhas funções. Porém agora estava aposentado, e que o meu governo apenas exigia  que eu fizesse relatórios periódicos de minha atividade, mesmo aposentado. E que, antes de se aposentar, o governo nos obriga a usar um aparelho especial e secreto, e que permite que eles sempre saibam exatamente onde estou, todos os dias e horas, em qualquer parte do mundo, usando satélites para me localizar. E sempre tenho que explicar sobre os locais e pessoas quando não estou em hotéis ou restaurantes públicos.

E saquei da mochila o aparelhinho da Link monitoramento, e apontei para sua luz vermelhinha, sempre piscando!!!

O susto foi evidente. Silêncio. Dinheiro de volta pra bolsa.

Foi como se eu tivesse levantado da cadeira e gritado bem alto: “TRUCOOO!!”

Levantei e saí. O motorista do Tuk Tuk da Miss Chan me olhou espantado: -”Vamos pro centro!” ….. e fui embora! Aliviado!!

 

E. T.: Agradecimentos à Link Monitoramento. Hugo, ainda que as vezes não se tenha sinal de satélite, o aparelho “ajuda”, e muitooo!