Diário

05/05/2014 - 19:50 | Postado por:
44 – Um lugar onde não existem sonhos! 05/05/2014
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Felicidade não depende de dinheiro! “Estás vivo, sos rico!!”

O ano é 2006. E  estamos no dia 10 do mês de Agosto. E o ônibus que sairia as 5:30 da madrugada, só partiu às 6:40, lotado, com as pessoas precariamente acomodadas nos 65 bancos, nada confortáveis. Três fileiras de um lado, duas do outro do estreito corredor, espaço mínimo para pernas. Ali eu era o único estranho, e todos me olhavam.

Os primeiros raios do sol já iam iluminando a estrada esburacada e poeirenta, e também as montanhas e verdes vales circundantes. Vez por outra, passávamos por “viajantes” que seguiam a pé, cobertos da cabeça aos pés, com longos mantos brancos, levando seus rebanhos de cabras para vender nos mercados dos vilarejos próximos, as vezes distantes. Assim seguia olhando pela janela, mergulhado na mais profunda contemplação, desejando que aquela “viagem” não durasse apenas as 24 horas como anunciado. Poderia ficar ali indefinidamente, sonhando com um mundo, onde a felicidade fosse realmente reconhecida como um sentimento que independe do dinheiro, mas sim do fato de apenas sentir-se vivo!! Nesse estado de espírito nem percebia o desconfortável sacolejar do ônibus, até que o cacarejar de um galo trouxe minha atenção de volta ao interior do veículo onde viajava. Estava sentado numa cadeira, sim, pois aquilo estava muito longe de ser uma poltrona, bem ao lado do motorista e, olhando para trás puder ver uma montoeira de “bagagens” empilhadas no corredor. Sacos de produtos agrícolas, sacolas de comida, roupas, galinhas e cabras amarrados e que tentavam se ajeitar, minimizando o sofrimento. Ainda assim, amontoados junto com as galinhas, alguns poucos galos não esqueciam de anunciar mais um novo dia de vida! Que vida! Diferente sim, das vidas que costumamos viver.

Estamos na Etiópia,  antes, reino da Abyssinia! E aqui, a vida de 78 milhões de habitantes é muito diferente! Bem mais da metade vivendo no campo, como antigamente. Muito antigamente.

E é preciso reconhecer. Existem várias formas de viver. E ser feliz!

Um outro mundo

A forma como vivemos e aspiramos a felicidade em “nosso mundo” é apenas uma entre muitas! Aqui na Etiópia, de início, quando nos misturamos ao povo local, o sentimento que nos invade, é de que pertencemos a um outro mundo. E os motivos são muitos!

Para começar, aqui o ano não é 2014, nem estamos no mês de Abril, como em todo o resto do mundo, como também, o dia não tem as mesmas horas que nosso relógio indica. As explicações são muitas.

- Motivados por uma interpretação diferente, do cristianismo ortodoxo, entendem que Jesus nasceu sete anos após a data que entendemos correta. Assim, aqui o ano é 2006 ainda! E também o dia do natal não é 25 de Dezembro, mas 7 de Janeiro!

-  Entendem também que o dia termina quando o sol se põe e começa quando ele nasce. Quando nosso relógio marca 6 horas da tarde, o sol se põe e escurece, termina o dia. São 12 p.m. E a hora seguinte é 1 a.m. e não 19 horas.

Dizem que nosso horário não faz sentido!

Para entender melhor, basta inverter nosso relógio. Ao invés do número 12 coloque o 6, e vice-versa. Isso causa muitos transtornos aos viajantes. Começa já na chegada ao hotel, uma vez que o check-in é feito no horário local. Quando vamos pagar a conta, normalmente somos surpreendidos com uma diária extra, pois alguém que entre no hotel achando ser 14 horas, na realidade está entrando às 8 horas da manhã, e às 12 começará nova diária. E você terá que pagar por ter entrado 4 horas antes.

- A língua oficial é o “Amarico”. Mas existem mais de 80 línguas diferentes, e 200 dialetos. Todo etíope é originário de uma tribo, mesmo os que vivem nas grandes cidades. E cada tribo tem uma língua própria. Nas escolas se ensina o Amárico, o inglês e mais a língua da região de cada tribo.

- O ano é dividido em 13 meses. Cada mês tem sempre 30 dias. O décimo terceiro, chamado “Pagume” tem apenas 5 ou 6 dias, dependendo do ano. E comemoram o ano novo no dia 11 de Setembro. Seguem o calendário ”Juliano”, enquanto nós seguimos o Gregoriano.

- As mulheres da Etiópia são consideradas as mais bonitas de toda a África. Isso se explica em parte por uma alimentação saudável. São magros na sua maioria. Todos comem basicamente um prato chamado “Injera”. Uma massa, como a nossa panqueca, mas feita com cereal integral, que é colocada aberta numa bandeja. Sobre ela é esparramado um molho à base de tomate, legumes cozidos e um pouco de carne. Comem sempre com a mão direita, recortando um pedaço da massa com o qual pegam um pouco do molho, carne e legumes. Além disso, observa-se que os etíopes, ao contrário dos outros negros, tem o nariz delicado e afilado.

Perdido no horário. E suas consequências …

Por conta da diferença de horários, acabei perdendo o ônibus numa das viagens entre o norte e o sul. Tinha conhecimento que minha viagem iria durar 24 horas, para um percurso de 700 kilometros. De início não entendia bem o porquê. Pensei que fosse por causa das estradas esburacadas. Depois, além disso, percebi que aqui não se viaja à noite, por ser bastante perigoso. Muitos animais na pista, além de possíveis apedrejamentos e assaltos. Por isso, ao anoitecer todos os ônibus, nas viagens longas, param numa cidade qualquer e os passageiros vão para hotéis. Quando paramos, olhei o meu relógio e vi que ainda eram 3 da tarde o motorista avisou a todos, gritando bem alto: -” Amanhã”, todos aqui ás 11 horas!”  Nem me dei conta que na realidade, para eles já eram 21 horas! Feliz da vida com tanto tempo disponível, por poder tirar a poeira do corpo com um bom banho e, além disso descansar bastante, pude dormir até as 10 da manhã do dia seguinte. Quando acordei, algo me dizia que tinha alguma coisa errada com o horário. Porque as 11 e não mais cedo, já que o horário da saída no primeiro dia fora ás 5″30 da manhã pelo meu relógio. Quando fui até a estação, no caminho já fiquei sabendo que o horário das 11 horas era local, e correspondia às 5 horas do “meu relógio”. Que confusão!! Só rindo mesmo!

Já que eu deveria estar em Addis-Ababa (assim que se escreve) naquele dia, o jeito foi pegar um “minibus”. São “vans” normais e funcionam como uma segunda opção de transporte em toda a Etiópia. Substituem os táxis nas cidades e os ônibus fora delas. Mas usá-los é uma verdadeira aventura. Tem uma lei federal que obriga esses veículos, sob pena de multa, a transportarem tantos passageiros quantos assentos tiverem. Um por assento. Na prática ninguém obedece, mesmo sendo multados. E vão parando dezenas de vezes durante o trajeto, e carregando de tudo. Desde enormes sacos com produtos agrícolas para serem vendidos em feiras, sacolas com roupas, utensílios, até arados de madeira, móveis em geral -até jogos de sofá – cabras e galinhas amarrados, dentro do carro ou pendurados no teto, do lado de fora, o que faz que normalmente cheguem mortos ao destino. Algumas vezes, contei mais de vinte pessoas amontoadas junto comigo, na parte traseira. Como eu iria usar o tal minibus por umas 12 horas, pude “apreciar” de tudo um montão!! Todos os cheiros imagináveis. Poeira que fazia meus olhos lacrimejarem sem parar. Aprender como se equilibrar na ponta de um banco para duas pessoas, mas com quatro, e ainda ver o carro parar e  -“Adis, Adis, Adis…!!” – que é como o auxiliar do motorista vai gritando, com a cabeça pra fora, o nome da próxima cidade, sempre que vê um grupo de pessoas ao longo da estrada. Cada vez que o carro para, as pessoas se acotovelam na esperança de poder serem aceitos pelo cobrador, que vai escolhendo aqueles que imagina terem dinheiro para pagar. Eu pessoalmente, jamais imaginaria que alguma daquelas pessoas tivesse como obter algum dinheiro. Para nossos padrões, não passavam de mendigos, maltrapilhos e malcheirosos. No entanto, dentro do carro a conversa sempre rolava muito animada, ao som de altas gargalhadas, enquanto todos se sacudiam no ritmo da música que quase explodia os alto-falantes. Isso tudo me trazia o verdadeiro significado da palavra “inesquecível”, ou, me perguntava – “o que estou fazendo aqui?”. Na realidade tudo aquilo significava mesmo o quanto temos para ver, viver e aprender. O que existe além de “nosso mundo”. Para muitos, tal experiência pode parecer inútil e desnecessária. Mas para quem realmente quer conhecer o verdadeiro mundo em que vivemos, vivenciar tudo isso é privilégio de muito poucos!

Turismo na Etiópia

Fazer turismo na Etiópia é muito caro. Pelo seu atrativo de ser considerado pelos cientistas como “berço da humanidade” – aqui é a casa de Lucy, o mais completo e antigo fóssil hominídeo, com 3,2 milhões de anos – e todas as diferenças em relação ao resto do mundo o país exerce um fascínio enorme aos que já conheceram muitos lugares e estão à procura de algo realmente novo. Mas a estrutura para um turista independente é praticamente inexistente. A maioria da população, mais de 60%, vivem nos campos, em condições de vida extremamente precárias. Há o forte risco de contrair malária. O transporte é caótico. A alimentação é baseada em apenas um prato local. Existe um número sem fim de “guias” que prometem tudo, por preços baratos e depois acabam exigindo muito mais dinheiro que o combinado, além de propinas e comissões, com muita veemência e até ameaças. O aluguel de carros é praticamente proibitivo, face a exigência de muitas taxas a pagar e papéis a serem conseguidos pelo pretendente. A alternativa de usar ônibus não é recomendável. Não tem sequer WCs. Param de tempos em tempos para que os passageiros corram, cada um para um canto no meio do mato para fazer suas “necessidades”. O horário de partida é apenas uma referência, uma vez que o ônibus só sai quando está lotado. Por isso tudo, fica muito difícil alguém se dispor e conseguir, sozinho, enfrentar todas essas variantes cheias de surpresas.

Dessa forma, as agências de turismo cobram o que querem dos que por aqui se aventuram. E os que tem o dinheiro suficiente para pagar tudo são na maioria os europeus, e agora os japoneses e chineses, que começaram a vir em maior número. E quase não se vêem esses turistas nas ruas. Do aeroporto vão para hotéis grandes e caros. Só saem acompanhados por guias em carros de luxo, direto para os “safáris” ou visitar locais turísticos.

Recentemente estive na Bolívia, e, por 4 dias de viagem em Toyota Land Cruiser, com hotéis e comida incluídos, o custo total, normalmente, é de US 200 por pessoa. Na Ásia, quando estive na Tailândia observei o mesmo, tendo-se em conta que se trata de incursões em áreas bastante simples, com hotéis muito modestos e comida bastante frugal. Aqui, pelos mesmos 4 dias em lugares com estrutura similar, o valor cobrado começa acima de mil dólares, chegando até a limites estratosféricos. Quem não tem esse dinheiro, acaba por não vir, ou se vier, frustrar-se por não poder ir a muitos lugares, ou, como eu,  tendo que abandonar todos os “medos” e mergulhar fundo numa aventura por meandros desconhecidos.

Um lugar onde não se sonha…

Nas grandes cidade da Etiópia o número de pessoas abaixo da linha da pobreza  é muito grande. Ao longo das estradas e nos lugares mais afastados, o mundo moderno ainda está muito distante. E o que se vê nas vilas e tribos, é um povo que tem como grande prazer a convivência. E muito comum vê-los sentados, em grandes rodas, fazendo a cerimonia do café, servido sempre com pipoca e muita conversa e risada. É como se cada dia necessitasse de uma nova celebração. Estar ali, naquele momento, com os amigos e familiares reunidos é o maior prazer de cada dia. Todos os dias!

Sentar-se junto a eles, perceber a alegria com que contam seus “causos”, suas brincadeiras quase infantis, é perceber um mundo novo, com pessoas que parecem nunca precisar sonhar para ser felizes. Simplesmente por não terem com o que sonhar! E se descobre que por isso mesmo é que parecem ser tão felizes. Nenhum deles pensa em guardar dinheiro para comprar um celular novo, uma televisão, um carro ou fazer uma viagem. Simplesmente, por não terem  o mínimo conhecimento de nada além de seus limites, revelam uma alegria irradiante, simplesmente pelo fato de poderem estar ali, todos os dias conversando e rindo, e dividindo a comida e o momento, uns com os outros. Não há com o que sonhar. A vida de cada dia é o sonho. Viver sem preocupações, conversar, sorrir, apenas estar vivo, é o sonho. E assim, também estão livres de frustrações.

“O mundo tem o exato tamanho de uma pequena vila, para quem apenas nela viveu”. Um dia alguém escreveu essa frase. Aqui se descobre ser inteiramente verdadeira.

Se achamos que poder sonhar é parte da felicidade, aqui descobrimos que sonhar também é parte de nossa infelicidade, quando não conseguimos realizar muitos de nossos sonhos.

Os Miseráveis

Um dos livros que mais marcou minha vida foi “Os Miseráveis” de Victor Hugo. Foi a primeira vez que pude entender o que significa ser, verdadeiramente, rico ou pobre, ou até miserável.

Ali aprendi que a verdadeira riqueza não é aquela que se acumula nos bancos, e transforma simples pessoas em poderosos e influentes, mas sim uma outra, invisível aos olhos, já que é guardada na alma. A riqueza do espírito. E como o dinheiro, há os que tem muito e há os que tem pouco. E há também os que não tem praticamente nada, ou seja, aqueles que escravizam, que maltratam, que desprezam, incapazes do altruísmo, obcecados pelo egoísmo, oportunistas vorazes. Esses os “miseráveis”, de espírito!

Aqui na Etiópia pude ver pela primeira vez um mendigo totalmente sem roupa, vagando pelas ruas. Quando estava dentro de algum “minibus”, as vezes desejava que algumas pessoas, pela aparência, não sentassem do meu lado. Outras vezes, quando era abordado na rua por algum guia oferecendo serviços, duvidava que “aquela” pessoa fosse um trabalhador honesto.  Algumas vezes me vi discutindo preços, por “achar” estar sendo enganado. Vi um monte de sorrisos onde achei que não devia ver. Aqueles que julguei serem “miseráveis”! Desde a capital, passando pelo norte cheio de igrejas e cultura, até o sul com suas tribos exóticas, ainda vivendo como há milhares de anos atrás.

E todas essa pessoas, e todos esses momentos, apenas me mostraram o quanto ainda estou longe da verdadeira riqueza de espírito.

As fotos que seguem refletem os pensamentos acima. Tem fotos de alguns lugares interessantes, mas, na maioria, mostram o rosto das pessoas. Em cada um procurei o reflexo do espírito. A confirmação de que a verdadeira felicidade é Estar Vivo!