Diário

22/06/2014 - 22:43 | Postado por:
45 – Um lugar onde todos sonham! 22/06/2014

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Da Etiópia, não pude passar para o Quênia devido as conturbações na fronteira. As noticias da situação no país não pareciam convidativas para uma visita. Minha opção foi mirar num outro sonho, nascido nas páginas de revistas de turismo. As cataratas de Victoria Falls. De Addis Abeba voei pra Lusaka, capital da Zâmbia. Dali segui de ônibus até a cidade de Livingstone, junto as cataratas. O nome da cidade é em homenagem ao escocês que as revelou ao mundo ocidental, dando o nome da sua rainha, Victoria, em 1.855. É uma das cataratas mais famosas do mundo, situada no Rio Zambeze, na fronteira entre Zâmbia e Zimbabwe, inscrita como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco desde 1.989. Sobre sua beleza, o nome do Parque Nacional da Zâmbia, Mosi-oa-Tunya, explica muito bem. Nessa língua nativa significa ” a fumaça que troveja”. Com 1,7 Km, é a maior cortina de água do mundo. Cai de 128 metros de altura e forma uma nuvem de vapor que se vê há muita distância. Muito antes de chegar ao parque os turistas já se alvoroçam ante a visão das grandes nuvens. Quem não conhece pensa serem nuvens normais. E nas proximidades, realmente, o barulho parece um trovão. Mas tudo isso tem um pequeno inconveniente. Nos mirantes é muito difícil conseguir enxergar a água despencando. A fumaça deixa tudo encoberto na maior parte de todo o percurso ao redor das cataratas. Em compensação, pode-se admirar uma grande quantidade de arco-íris. Para apreciar tudo de todos os ângulos, além de poder tirar muitas fotos, fiquei dois dias percorrendo cada pedacinho de mata possível. Um momento muito especial.

Os Trilhos da Liberdade

Para sair da Zâmbia, voltei a Lusaka em ônibus. Nos dias que fiquei em Livingstone li sobre as dificuldades do povos africanos de exportarem qualquer coisa para o resto do mundo pela total falta de infraestrutura, boas estradas, estradas de ferro e portos equipados. Como resultado das turbulências do regime “Apartheid” na África do Sul, o governo da minoria branca, naquela época, resolveu fechar os portos aos seus vizinhos, impedindo os países do sul do continente africano de exportarem suas riquezas. A Zâmbia foi o país mais prejudicado por não ter acesso ao mar. O porto mais próximo era na Tanzânia. E o governo desse país se sensibilizou, declarando que os tanzanianos não seriam felizes enquanto seus vizinhos também não o fossem e disponibilizou o porto da sua capital Dar Es Salam. Mas não havia infraestrutura alguma para chegar até lá. Sem estradas a Zâmbia se via isolada e empobrecida.

Foi aí que apareceram os chineses e prometeram construir “gratuitamente” uma estrada de ferro até o porto na Tanzânia , possibilitando o escoamento do minério de cobre, a maior riqueza da região, e também produtos vindos do Congo poderiam ser beneficiados com a ligação com o mar. Em 1970, cinco anos depois do prometido, a estrada de 1.860 Km foi concluída. E à ferrovia foi dado o nome de TAZARA – Tanzânia Zâmbia Railroad.

O inicio da operação da ferrovia foi celebrado em toda a Àfrica como “Os Trilhos da Liberdade”, simbolizando a luta de todo o povo africano por seu lugar no cenário do comércio globalizado. E também significa muito mais do que simples comércio. O continente africano representa os primórdios da humanidade. O estigma, grande marca de seus povos, é sua alma nômade. Dali partiram os primeiros humanos para povoar o mundo. E ainda hoje esse mesmo espírito ainda os move de um lugar para o outro. Parecem que para serem felizes tem que estar se locomovendo de um lugar para o outro. Nas estradas africanas é comum ver as pessoas andando com imensas cargas nos ombros, sozinhos ou com as famílias inteiras e seus animais, ao longo de trechos distantes de qualquer cidade. E nessas horas, olhando para seus rostos, é que vemos seus melhores sorrisos.

Mas o mundo moderno não permite “caridades” entre nações. A estrada “doada” pelos chineses, na verdade representava uma necessidade de poder contar com o minério barato. Uma simples questão de custo-benefício. Nos tempos atuais, com outras opções ao redor do mundo, a ferrovia está praticamente a ponto de parar completamente, por total falta de manutenção e recursos para renovação dos trens.

Onde todos sonham!

O percurso entre a Zâmbia e Dar Es Salan, por falta de passageiros, é feito apenas uma vez por semana e dura 3 dias. Isso se o viajante tiver sorte. O trem pára em cada pequeno povoado para que as pessoas possam embarcar ou desembarcar, levando seus produtos agrícolas e até animais, de uma feira para outra. E também pára outras vezes, por defeito mecânico, ou problemas nos trilhos. Durante todo o percurso, se vêem vagões tombados, frutos de constantes descarrilamentos, face ao desalinhamento dos trilhos, falta de manutenção ou desnivelamento do terreno. O preço da passagem, para tentar atrair os passageiros, é irrisório. São três classes. A primeira e segunda, disponibilizam camas em cabines. Na primeira, quatro camas e na segunda, seis. Na terceira classe, só bancos. A passagem mais cara custa US 30!! A mais barata, só para os locais, varia por trecho percorrido, começando em US 2!!! Todos os vagões estão em péssimo estado. As portas não tem trancas nem vidros. Os banheiros não tem torneiras, nem água! As mercadorias ficam empilhadas no corredor, Para passar, os passageiros tem, muitas vezes que pular sobre sacos de batatas, bananas, ou galinhas amarradas se debatendo. Em todo o percurso o trem passa por plantações agrícolas, principalmente milho e banana.

Há dois anos atrás, um viajante que encontrei no caminho, disse ter feito a mesma viajem e ter gostado muito, por ter avistado muitas girafas, e elefantes. Hoje, não se avista nenhum “baboon”, que se encontram ás centenas próximos as cidades. Conversando com os viajantes que vão de um lugarejo pro outro, soube que a média de filhos por família é cinco. Assim não é de espantar que cada família tenha sua plantação e criação, para sustento próprio e ainda tentar fazer sobrar algo para vender nas feiras que se multiplicam. E não tem mais lugar para animais selvagens, e os que teimaram em ficar perto dos humanos, viraram alimento.

Assim, a passagem do trem, uma vez por semana, para todos os moradores ao longo da ferrovia, ainda representa “os trilhos da liberdade”, ou melhor, “os trilhos dos sonhos”. Na aproximação do trem, se forma um enorme alvoroço. Centenas de vendedores de banana, laranja, amendoim, pipoca, abacate, batata doce, peixe defumado, galinha frita, batata frita, sucos industrializados e caseiros, artesanato primário, se atropelam em busca de uma janela, onde possa ser encontrado algum viajante com dinheiro para comprar algo. Na maioria, são viajantes de lugares próximos e que também estão indo atrás de dinheiro apos vender suas “coisas”. Assim, o que sobram são os poucos “turistas”! Pessoas que vem de longe e “tem muito dinheiro”. Os de pele branca são logo identificados e disputados pelos vendedores. Também é preciso descobrir os de pele negra que vem de longe e vão para muito longe. É preciso descobrir todos. É preciso vender tudo o que for possível para todos. O dinheiro que se conseguir aqui, pode ser o único dinheiro da semana, ou até do mês.

Com três dias para poder  ”apreciar” cada momento e refletir sobre tudo o que vejo, percebo que o dinheiro não lhes faz realmente falta ali naquele lugar. Para continuar vivos, tem comida em abundância. O solo é fertil e a produção é farta.

Quando o trem pára por ser uma cidade maior, podemos descer e conversar mais com os locais. Tem curiosidade sobre nós. Para onde vamos e de onde viemos. Têm curiosidade sobre nossos celulares e câmaras fotográficas. Uma simples lanterna é atração. Nossas roupas e calçados são “interessantes” para quem anda descalço ou tem apenas sandálias e velhas camisetas. Assim, as vezes, temos que pensar duas vezes sobre dar algum presente, como uma camisa que tenhamos sobrando. A disputa que vai gerar pode ser uma cena triste.

As crianças correm ao longo dos trilhos, tentando fazer o momento de felicidade durar um pouquinho mais. Os adultos acenam e esperam nossos acenos. É uma troca de afeição a distância. Às vezes ficam imóveis vendo o trem passar e olhando em cada janela, à espera do carinho do viajante desconhecido. Quando acenamos, parece que se enchem com um novo sopro de vida, e gesticulam risonhos agradecendo a deferência. Na verdade é uma verdadeira troca. Fazemos nascer sorrisos e eles, respondendo, também nos fazem sorrir.

Quando o trem segue vagaroso na chegada e na partida de cada estação, podemos ver de perto suas fisionomias. Parecem nos admirar. Revelam tristeza profunda no olhar. Vivendo ali naqueles lugares, sem muitas perspectivas quanto ao futuro, poderiam ser muito felizes por terem tudo para sobreviver. Mas parece que na passagem do trem, uma vez por semana, podem contemplar pessoas diferentes, que vem de longe e não se sabe para onde vão. Usam roupas novas e bonitas, tem telefones e câmaras que parecem custar caro. E seus olhares revelam sonhos distantes, inatingíveis. Talvez seja apenas a vontade de obedecer suas almas nômades e também poder viajar. Sonham com o que não tem, sem focar no que tem.

E aqueles “privilegiados viajantes” seguem sua viagem de desconforto, de descobrimento, de mergulho numa realidade muito distante de qualquer sonho. E se algum passageiro ainda se sentia feliz na “sonhada” viagem, a chegada a Dar Es Salan o faz acordar. Chegamos às três e trinta da madrugada. Todos os passageiros foram encaminhados para o hall de espera da estação para aguardar a luz do dia. As portas da estação permaneciam fechadas e todas as luzes apagadas. Motivo: “não é seguro sair da estação antes do dia amanhecer”. Melhor aguardar ali sentados tentando se livrar dos mosquitos no escuro. E se tiver sorte nenhum deles vai transmitir malária!

E fico a pensar, se sonhar, realmente pode nos fazer mais felizes do que viver cada momento da melhor forma possível, dentro da nossa realidade.